Cardus Edição 138, outubro 2024

LIVROS

Lara Nilde



A Sociedade Muito Secreta dos Caminhantes Solitários

Rémy Oudghiri

 

“O seu olhar alterou-se.

- Que se passa? A pergunta foi indiscreta?

- Não, de modo nenhum. Simplesmente percebo, ao falar consigo, como caminhar sem destino é importante para  mim. É uma coisa que faço de maneira instintiva. Nunca pensara nisso antes.

K. tinha a certeza de que muitas pessoas caminhavam sem destino.

- Porque pensa isso?- perguntei eu, intrigado.

- Porquê? Porque me parece tão essencial. (…) Caminhar sem destino é muito íntimo…”

 

Comprei este livro porque gosto de caminhar sem destino e achei curioso o facto de alguém ter escrito sobre isso. Mas engana-se quem pensar que é um livro divagável (inventei esta palavra e fica assim) sobre a arte de caminhar.

Comecemos pelo historial do autor: investiga movimentos sociais e tem mais obras publicadas sobre esses movimentos ou tendências sociais.

Esta obra nasce da reunião de testemunhos sobre esses caminhantes/errantes, as razões que os levam a isso e o porquê de isso ser tão estruturante nas suas vidas. Chama-lhe uma comunidade invisível.

Nem todos os caminhantes são lobos solitários mas fazem-no para se encontrar. Muitos já se descobriram mas usam a caminhada para se encontrarem consigo mesmos no caminho de uma cidade, numa viagem, nos prédios e edifícios, montanhas, florestas…

Parece querer estudar a caminhada como uma forma de isolamento humano e encontra uma tribo invisível.

Ao longo da obra podemos ler “representantes dessa arte” como Breton, Rousseau ou Pascal nas considerações do autor.

Os relatos não são todos da mesma matéria, são eclécticos e nem todos místicos ou apaixonantes.

Se tivesse que traçar um fio invisível entre todos estes caminhantes que fazem parte do livro, talvez esse fio não tivesse ponta pois parece estar presente sempre uma tentativa de fuga ao caminhar. E estará?

Destaco o caso da mulher divorciada. Encontrou em outra pessoa o gosto de caminhar ao seu lado e percebeu o quão íntimo isso é.

Percebo isso. Gosto de caminhar calada ou a ouvir quem vai comigo.

Tinha uma pessoa querida lá para os lados de Barcarena com quem fazia isso. Falava mais ela que eu. Talvez ela nunca soube o quanto eu gostava disso, o quanto eu não queria que aquele caminhar acabasse, o quanto aquilo me salvava. E ela falava da vida dela, dos seus ou dela e eu ouvia como se tratasse de uma música de embalar. Aquelas que as mães cantam aos filhos.

Talvez este texto seja sobre a Aline.


Lara Nilde

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