Cardus Edição 117, janeiro 2023
Não fomos feitos para voar. Ou melhor, nascemos com essa incapacidade, mas podemos inventar. Então inventamos os aviões.
Talvez Tsukuda não fosse muito dado a invenções e isso representaria uma fatalidade.
No centro desta história está o narrador, num raio muito próximo de si está Tsukuda. Mas Tsukuda não pode não ser um centro. Ao longo da leitura fica pouco esclarecido qual será o centro ou a personagem principal. Pode ser que assim seja porque são os dois parte da mesma constelação que explodiu no tempo em que se acreditava que os homens podiam levitar por obra de uma santa qualquer.
Mas vamos ao narrador. Trabalha como coordenador pedagógico do Liceu de Camões, deixou de ensinar e aceitou essa tarefa repetitiva e aborrecida, um perigo para um alcoólico em recuperação.
“Apesar daquilo que perdi, foi a melhor decisão. Abdicamos da vida para podermos vivê-la, abdicamos dela a toda a hora, a todos os minutos, a cada gesto, é esta a crueldade contra a qual justamente nos revoltamos, uma luta desde sempre perdida, capitulada.”
Treze dias após o suicídio de um colega, dão-se início a umas reuniões semanais na escola com vários colegas e cujo mentor é o nosso narrador.
O suicídio do professor Tavares deixa a estrutura do Liceu abalada.
“Que estranho, pensei, nessa mesma noite, a caminho de casa, descendo a Duque de Loulé de chapéu de chuva na mão, comprado nos chineses, as gotas a ressoarem no tecido barato, as ruas meias desertas de fevereiro: que estranho alguém que nunca chegamos verdadeiramente a conhecer pudesse de repente, ocupar um espaço central nas nossas vidas; não por aquilo que fizera mas pela sua ausência. Pela ausência. Remove-se uma peça de tabuleiro, e depois?”
Várias reuniões se seguem, até que um estranho japonês aparece no encontro e aqui a história ganha densidade pois este estranho tem uma estranha forma de vida que se torna uma espécie de mistério a ser resolvido pelo narrador.
Mistério esse que acrescenta algo à sua vida, que, de certo modo, o aproxima de seu filho e que o afasta do mais negro que há em si ao devolver-lhe, em espelho, a fragilidade que é a ação humana e as leis universais do universo a agir em nós.
Como o sermos capazes de voar.