Cardus Edição 87, 01-09-2020

Livros

Página de Lara Nilde

Homens imprudentemente poéticos

Walter Hugo Mãe

Uma das ideias que mais gostei neste livro foi a da existência de um Deus dos pequenos erros.  Se o leitor não estiver “dentro” deste Japão de que nos fala o autor, mal percebe a passagem em que é invocado o Deus dos pequenos erros.

“Mas até um erro poderia ser encantado(...) o Deus dos erros me entenda. Um Deus que exista só para os meninos. Que me entenda, por favor. E adormecia com a complexidade dos que se justificavam pela tristeza”

Os nossos pequenos erros podem ser justificados pela tristeza. A tristeza será, dessa forma um critério de decisão para grandes dilemas existenciais.

Nas personagens deste livro a tristeza não é algo conscientemente colocado como um critério. Ela tem uma forma e comanda traços de ações.

Todo o livro parece poesia. Quase se consegue ouvir música a cada palavra. E é nesse tom que nos fala sobre o Japão milenar e o suicídio sem ficar pesado ou sinistro. Porque o suicídio de que nos fala não é tal qual nós, ocidentais, o concebemos. Não nasce de um desespero, brota do nosso sentido de dever e entrega à natureza, contraditoriamente .... à vida.

A Floresta dos suicídios, local onde o autor situa as personagens já deu origem a um filme que vi faz muito tempo, mas não é abordado da mesma forma. Pelo que investiguei o autor teve a oportunidade de visitar o local. Visitar o local... visitar um local onde as pessoas vão para cometer um ato final. Intencionalmente. A ideia de que podemos visitar um local assim é vertiginosa. Para mim, claro.

São duas as personagens centrais, dois vizinhos inimigos. Mas uma inimizade de honra, de espera. O artesão Itaro e o oleiro Saburo. Um deles está em constante espera da morte. Como uma decisão a tomar. O outro espera que a morte venha e traga o corpo da mulher amada de volta para o quimono morto da mesma que continua ao vento.