Cardus Edição 93, janeiro 2021
Quando nos acontece algo no momento presente estritamente relacionado com um momento passado ao qual não demos importância, dizemos que não há coincidências. Não me irei deter na questão das coincidências porque isso implica uma espécie de crença em algo invisível que liga tudo, que comanda tudo e disso pouco ou nada sei dizer. Ou não sei acreditar. Mas vou contar uma história sobre o último livro deste ano.
Em agosto, um senhor dono de uma bela biblioteca ali para os lados de Barcarena, gentilmente cedeu-me três livros para eu ler. Um deles foi “Homens Imprudentemente Poéticos” sobre o qual escrevi um texto nesse mesmo mês. Nunca tinha lido nada de Valter Hugo Mãe. Pior: nunca quis ler nada. Dizia que não gostava do autor só porque sim. Mas eu sei que não. A verdade é que anos antes teci um comentário digno de ser alvo de vergonha alheia mundial por quem possa ter lido numa publicação do autor. A publicação anunciava a apresentação de um livro seu onde iria estar presente António Lobo Antunes, de quem gosto muito. Por impulso, escrevi: ”Mesmo?! O António Lobo Antunes vai estar presente?”
Escusado será dizer que quase me mandaram abaixo de Braga (curiosamente, de onde sou natural).
A partir desse momento, achei que a melhor maneira de lidar com isso era “virar o bico ao prego”: eu é que nunca mais vou ler nada de Valter Hugo Mãe! (tenho plena convicção de que esta minha atitude tem um nome qualquer em psicologia, mas vamos só chamar-lhe de patetice e indelicadeza). E nunca li até ao verão deste ano. Gostei do livro mas fiquei contente por não ter gostaaaadooooo do livro. Senti uma espécie de validação na minha capacidade de não gostar de um autor sem nunca ler nada dele. Deve ser uma coisa que se sente ou assim...
Uns meses mais tarde ouvi uma entrevista num podcast com Valter Hugo Mãe e depois outra e outra. E depois aquele texto brilhante que ele leu no Flip. E depois assisti em direto online ao festival literário Fliaraxá onde ele participou. Adormecia com vídeos Youtube de conversas com Valter Hugo Mãe. E percebi que gosto muito, muito, do autor! Percebi que gosto do autor sem ter lido quase nada dele. Então agora eu gosto do homem? Eu acho que ele é engraçado? Eu gosto do que ele diz? E agora até me emociono com o que ele diz? Percebi que o olho da vida de Valter Hugo Mãe é imensamente poético e cheio de palavras capazes de colocar tudo o que é inóspito no lugar mais quente e familiar para que nós, leitores, o possamos sentir. E isso merece um aplauso. Desde então, não parei de aplaudir Valter Hugo Mãe. E de ler.
O livro que escolhi para o texto deste mês é o “A Desumanização”.
Um livro gélido a combinar com a Islândia. É a história de uma menina que perde a irmã gémea. E perde tudo, vivendo desumanizada. Talvez a personagem não concordasse com esta minha interpretação porque os efeitos colaterais são belos. O amor do pai e o amor daquele que ela não podia amar. Entrei dentro da personagem principal e achei que nem ia conseguir terminar o livro. Porque tenho uma irmã e o livro coloca-nos perante uma realidade dura e bela que é poder partilhar a vida com outro que nasceu da mesma mãe que eu (e que nunca estaremos sozinhos por causa disso).
Halla é “a menos morta” porque não morreu como a irmã, mas a morte da sua irmã está em todo o lado e Halla não cabe em lado algum, em especial, não cabe mais no coração de sua mãe.
“O que me magoa é mais violento do que isso. Porque à minha mãe posso odiar sinceramente, perdendo-lhe a ternura, como se exercesse um sentimento honesto, sem problemas maiores. O que me magia está por definir e tem-me aqui presa quanto me obriga a fugir. De igual modo me propõe a morte e a vida ao mesmo tempo.”
Esta rejeição da filha que não morreu é um dos vórtices indicativos de desumanização porque nunca a aceitamos nem percebemos.
Apesar de tudo, Halla conhece o amor que vem de onde não podia, que traz mais tristeza mas que lança o gelo dos fiordes islandeses em chamas.
Tudo arde com a força de um poema.