Cardus Edição 76, 15-03-2020

Livros

Página de Lara Nilde

O MEU IRMÃO

AFONSO REIS CABRAL

Durante a leitura deste livro dei por mim em busca de algum sentimento em particular. Não me decidia sobre o que sentir. Será que procurei sentimentalismo e não o encontrei? Não o meu, pois esse tive em demasia, mas sim o do narrador: o irmão de Miguel. Miguel tem 40 anos e com a síndrome de Down.

Esta história passa-se no Tojal. Com a morte dos pais, os irmãos decidem quem fica com Miguel.

“Chegara o momento de decidir o futuro do Miguel. Eu nem sequer devia ser candidato. Vivia em Lisboa, dirigia o CEP e principalmente já nem o conhecia bem como irmão porque quase não o vira durante vinte anos exceto nas ocasiões regulamentares.

 Reunimo-nos na sala de estar logo depois do enterro da nossa mãe. Permanecia tudo vivo, menos os pais. (...)

Ninguém queria começar, muito menos eu. (...) Pelo jeito de me olharem, como se ostentasse alguma marca na testa, reparei que também já não me conheciam. Estranhavam-me eu repulsava-as e atraia-as ao mesmo tempo no mesmo movimento. É muito fácil discernir as coisas quando perdemos ambos os pais em pouco mais de quatro meses. (...)

Quando morre alguém, morre o tempo de arrasto. E morre uma relação de tempos. Sem a âncora dos meus pais, de súbito as minhas irmãs já não eram novas porque deixavam de ser filhas, ou tornaram-se filhas póstumas. Estavam à sua mercê, à solta, e por isso perderam qualquer máscara. (...) Muito mais velhas do que eu e o Miguel.

(...)

Assumiram em bloco a responsabilidade, cada uma com a voz mais fina e mais assertiva, só que em bloco perdiam, como aqueles que dizem nos restaurantes “Não, eu insisto” à espera de que o outro mantenha a sua e pague a conta. O outro era eu.

(...)

Despedimo-nos porque não havia nada mais a dizer, ou seja, havia muito mais a dizer, mas já não tínhamos forças. Pedi-lhes só umas semanas para despachar os meus assuntos.

À saída informei

- Agora ele é meu.

Para que elas percebessem que não podiam voltar atrás.

Estava feito.”

Ao longo da narrativa vamos à infância dos dois irmãos até ao seu afastamento.

“Quando um adulto passava por nós, colocava a mão no ombro dele, como a incentivá-lo. Eu aconselhava-o a continuar a terapia porque talvez conseguisse por fim desatar a língua ou ordenar os grunhidos e, assim, conversar comigo.”

O narrador é a personagem central. O livro é o que é devido à maneira como as coisas são para este narrador. Trata-se de um professor universitário, talvez à procura de algo que lhe devolva alguma alegria após o divórcio, mas mais que isso talvez procure algo que o confronte com a sua aversão às pessoas, em geral.

E fica com Miguel.

“E assim, também de repente, sinto que as minhas ambições de fraternidade se adequam mais a amar a humanidade, a tornar-me irmão da massa, do que a amar o indivíduo, mesmo que esse indivíduo seja de facto o meu irmão. Seja o Miguel. É mais fácil amar o que não existe, ou o que existe apenas em nós.”

Porém, este ato de redenção (digo eu) torna-se mais difícil com o aparecimento de Luciana, a paixão de Miguel, também deficiente e que o narrador tenta separar, mas rapidamente percebe que, em verdade, isso só os junta mais. Aqui o ambíguo são as razões pelas quais o narrador enceta uma luta para separar o seu irmão da “namorada”. É isto que torna a personagem central quase impiedoso. E desconfortável para nós, os leitores que conseguimos vislumbrar na relação daqueles dois deficientes laivos líricos tirados do romance de Pedro e Inês.

Até ao fim.

Lara Nilde