Cardus Edição 108, abril 2022
Sempre entendi que há algo no ato de fazer uma caminhada ou correr que se assemelha muito àquilo que chamamos meditação. Provavelmente, já me estou a meter por maus caminhos pois para muitos meditar é algo transcendente. Para mim, não. Meditar é seguir uma determinada cadência de movimento ou som até que o nosso universo fique reduzido àquilo… para depois recomeçar a “entrar no mundo”. Por esta razão, sempre achei que a melhor forma de o fazer é através da caminhada ou corrida.
Não sei se o autor concordaria comigo nesta analogia, poderia não concordar inteiramente, mas deduzo que estaria de acordo relativamente à ausência de algo transcendente no ato de correr.
Começou a correr em 1982, aos 33 anos. Até aí geriu um clube de jazz e os seus dias eram muito compridos. Havia decidido ser escritor em 1978 enquanto via um jogo de basebol. Mas o seu verdadeiro ponto de partida como escritor dá-se aos 33 anos. Tomada essa decisão e após publicação de textos, o autor debateu-se com um problema: como manter-se fisicamente em forma? Decidiu começar a correr.
“O desejo natural de “correr cada vez mais” funcionou para mim como uma poderosa motivação para não recair e uma ajuda decisiva para ultrapassar os sintomas de abstinência. Parar de fumar foi uma espécie de gesto simbólico de despedida de vida que até então estava habituado a levar.”
Em 1983, participa na sua primeira corrida de estrada, cinco quilómetros. Em maio participa na prova de quinze quilómetros à volta do lago Yamanaka e daí para a frente foi aumentando a distância. Diz nunca ter achado as distâncias “nada do outro mundo” e nunca ter sentido dores nas pernas e julgou-se assim pronto para correr a maratona. “ Só mais tarde viria a descobrir, e da maneira mais dolorosa, que a parte mais difícil da maratona começa depois que se ultrapassam os trinta e cinco quilómetros.”
Mas vamos àquilo que mais me interessou nesta obra. Existe alguma relação entre a corrida e a escrita? Existe aquela que o leitor conseguir encontrar. O livro é, de facto, um auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo e não um tratado sobre os benefícios da corrida para a escrita. Mas a corrida é também um modo de observar: as ruas, os rios, os passeios, as estradas, as pessoas…
“Penso que o que me leva a correr desde há mais de vinte anos assenta numa razão simples: estar em movimento condiz com a minha maneira de ser. Ou pelo menos não representa para mim qualquer sacrifício. É típico dos seres humanos continuarem a fazer coisas de que gostam e abdicarem do que não gostam.”
Existe uma sincronicidade temporal entre o momento em que decide ser escritor e começa a escrever. Podemos ver a corrida como um ponto de partida para ser escritor.
Esta obra ou estas reflexões sobre o autor, parecem ser um modo de sistematizar e narrar o ato de correr. “ Considero-me uma pessoa lenta e meticulosa, e, na medida em que sinto dificuldade em apreender o significado de seja o que for sem antes traduzir por escrito os meus pensamentos, vi-me obrigado a deitar mãos ao trabalho e passar para o papel estas palavras. De outro modo, nunca ficaria a saber o que significa para mim o ato de correr.”
Destaco a sua primeira maratona em pleno Verão ateniense.
“ Vamos regressar ao ano de 1983. (…) .
Em Julho desse ano, tinha-me deslocado à Grécia e corrido, sozinho, desde Atenas até à cidade de Maratona. Ou seja, no sentido inverso ao da primordial corrida, quando o mensageiro se abalançara a percorrer a distância entre Maratona e Atenas levando com ele as notícias sobre a frente da batalha. Tomara a decisão de correr em sentido contrário. (…)
A corrida decorreu sob um calor abrasador e sozinho pois não era uma corrida oficial mas sim uma proposta de uma revista masculina apenas com o pretexto de tirar algumas fotos. O autor decidiu fazer a corrida por completo
“ O que me torna feliz é saber que não tenho que dar nem mais um passo.”