Cardus Edição 120, abril 2023

LIVROS


Lara Nilde





O Amor e a Morte



Para além do seu talento, há algo no arquiteto português Álvaro Siza Vieira que faz dele um homem singular. Talvez esteja relacionado com a perda da sua jovem esposa há 50 anos. Chegou a dizer que ele era “um solitário com a televisão ligada”.

Na primeira noite da morte do marido, Simone de Oliveira dormiu na cama onde sempre dormiram e até hoje deixa uma luz ligada durante o sono. Diz que chorou durante três meses com uma toalha a abafar o choro para que os vizinhos não ouvissem.

O amor e a morte são dois temas fundamentais da condição humana já muito abordados por filósofos, escritores ou romancistas. O amor pode transcender a morte, fazendo-nos sentir “vivos”, mas a morte nada transcende. A morte separa os amantes. Acaba. Para nunca mais “ver” ou “viver”.

Para Friedrich Nietzsche o amor nada mais era do que uma ilusão criada pelo nosso desejo em dar continuidade e perpetuar a vida, enquanto a morte é o fim inevitável de todas as coisas.

A morte no amor não é a morte do amor. É um amor trágico que continua sem o outro.

Em “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, um livro autobiográfico da escritora Rosa Montero publicado em 2013, é feita uma homenagem ao seu falecido marido, o também jornalista e escritor Pablo Lizcano, refletindo sobre a morte.
Rosa partilha as suas emoções, o seu luto e a sua perda. Explora a ideia de que a memória é a única maneira de manter o amor que morreu vivo em si.
Não sei se a autora concordaria comigo se eu dissesse que este é um livro sobre a morte do seu marido porque vai para além disso. Mas, ao fazê-lo embrulha a  sua história no diário de uma polaca  a quem foram atribuídos dois prémios nobel: Marie Curie.
O diário de Marie Curie é posterior à morte do seu próprio marido que faleceu aos 47 anos, atropelado por um carro puxado por cavalos.
“Comprei meia dúzia de biografias de Madame Curie, de quem antes já sabia coisas, mas não tantas, e alguma coisa informe começou a crescer dentro da minha cabeça. Uma vontade de contar a história dela à minha maneira. Uma vontade de usar a vida dela como medida para entender a minha.”

Joan Didion na sua autobiografia publicada em 2005 relata o seu período de luto após a morte inesperada do seu marido. Ao longo do livro, Didion explora sentimentos de choque, tristeza, raiva e confusão. Partilha também reflexões sobre a natureza do luto e como diferentes culturas e religiões abordam o luto e a morte.
Explora também a sua crença no pensamento mágico, uma forma de pensamento não lógico como forma de lidar com a perda e incerteza.
Uma das imagens que guardo desta obra é a cena da véspera de Ano Novo, depois de terem ido visitar a filha no hospital, em que Didion e o marido se sentam para jantar e tudo muda. O marido tem um ataque fulminante e morre. Didion carrega na ideia de que de um segundo para o outro tudo pode mudar.
“A vida modifica-se rapidamente. A vida modifica-se num instante. Sentamo-nos para jantar e a vida, como a conhecemos, acaba”.
Naquela “primeira noite” a autora inicia o seu Pensamento Mágico: precisava ficar só para que ele pudesse voltar.

Em “Crime e Castigo” do escritor russo Dostoiévski, a personagem principal, Raskólnikov, comete um assassinato motivado por uma busca de justiça. No entanto, o amor é o que o leva à redenção, quando é tocado pelo amor de Sónia, uma prostituta com quem ele se conecta emocionalmente.
Em “Os irmãos Karamázov”, o amor é a única força capaz de trazer a esperança e salvação para aquelas personagens.
Nas obras deste autor, o amor e a morte é uma relação marcada por questões filosóficas fundamentais da existência humana. O amor é visto como uma força capaz de trazer significado e propósito para a vida, enquanto a morte é vista como uma realidade inescapável que exige que os personagens confrontem a mortalidade e a finitude humana. Juntos, estes temas criam uma teia complexa de questões filosóficas.

A morte em Ana Karenina, personagem principal do romance de Leon Tolstoi, é um evento trágico e complexo que pode ser abordado filosoficamente.
Uma abordagem possível, é a filosofia da morte ou da ética. Ana Karenina é uma personagem que, ao longo do romance, se depara com grandes questões éticas sobre os valores e as normas da sociedade em que vive. É uma personagem em conflito. É pressionada a escolher entre os seus próprios desejos e as expectativas e regras impostas pelas convenções sociais.
Faz uma escolha final: o suicídio. Esta escolha pode ser entendida como uma rejeição à moralidade imposta e tradicional o que  levanta questões sobre a liberdade individual e a responsabilidade moral.
Podemos também pensar na morte de Ana Karenina dentro da filosofia do amor e relacionamentos humanos. A sua morte pode ser vista como uma consequência trágica da sua personalidade movida pelo amor e paixão.

Romeu e Julieta somos todos nós, todos os amantes. Excetuando o contexto social da altura, representa o medo da perda do outro no amor romântico.
O amor é tratado como intenso e arrebatador, uma paixão que transcende as barreiras impostas pela sociedade e pelas famílias de ambos. Aqui, o amor supera todos os desafios. No entanto, a morte é uma presença constante em Romeu e Julieta e a tragédia acontece e leva à morte dos amantes. A morte é inevitável destino, é o resultado trágico do amor.
Mas pode ser também uma libertação para os amantes.


Lara Nilde