Cardus Edição 113, setembro 2022
Se me questionassem de que se trata o livro não saberia por onde começar.
Esta é a história de uma aldeia "castanho-avermelhada" esquecida do Alentejo, do interior esquecido e sem ofertas seja lá do que for para alguém, é a história dos habitantes dessa aldeia, o taberneiro, a fadista, a Tia Zulmira, o Joaquim Baiôa e é a história do professor narrador que, cansado e ressacado das consultas de psicologia, vai para a aldeia dos avós tentar recuperar a vida e largar os comprimidos.
O mesmo narrador faz o aviso no início da obra relativamente aos moradores da aldeia: "O que pode o leitor tomar como certo é que os vi morrer a todos."
As circunstâncias da morte de todos (todos?) os moradores desta aldeia devolveram o interesse por estar vivo a este professor cansado e insone pois cada um dos habitantes é uma forma de viver ora hilariante, ora trágica, ora sensata e esses modos de vida fizeram parte dos dias do professor, fizeram uma trança com os seus próprios fios soltos. Não sei se o autor concordaria com esta minha perspetiva mas eu é que li o livro e eu é que sei (até que ponto uma história contada ao mundo pertence ao seu autor?).
"Rapidamente fiquei a pensar, desprotegido como ia, que a natureza tanto gera mais bondade, disposição que acreditava ser essencialmente biológica, como cria o fim, depressões e suicídios, porque a humanidade é uma aspiração entrecortada pelo mal. Baiôa disse-me um dia que nenhum lugar se limita a afagar as pessoas, que nunca a natureza é somente mãe sem ser madrasta. Hoje, sei que, para quem trabalha no campo, nunca a natureza é apenas mãe. Devo, aliás, confessar que, em certas alturas, cheguei a desconfiar de que essa mesma natureza possuía uma agenda escondida - disfarçada com árvores tranquilas, rios mansos -, que passava por expulsar as pessoas."
Essa agenda secreta da natureza descobriu o professor pelas mãos de Baiôa e tinha um nome: Prontuário Terapêutico.
Há uma mudança de ambiente na história que roça o "brincar aos detetives" quando Baiôa mostra ao professor o caderno com a data da morte dos habitantes da aldeia.
"Imaginemo-nos, contudo, a pegarmos num papel. Esse papel contém uma lista de nomes organizados alfabeticamente. À frente de cada um desses nomes, surge uma data - não a do nosso nascimento, mas uma data futura. (...) Os dias estarão, a partir desse momento, todos contados, bem contadinhos, porque a coluna das datas indica a data provável de morte das pessoas ali listadas, indica a data provável da nossa morte."
Não consta a data do professor pois este não existiu na vida de Dr. Bártolo e a data de Baiôa também lá não se encontra. Baiôa sem data para morrer.
Baiôa guardara este segredo e encetou para si mesmo uma tarefa: reconstruir a aldeia. Não deixar morrer a aldeia atraindo gente nova e jovem. Obstinado, Baiôa começou a recuperar casas combatendo o desaparecimento das memórias e contrariar o destino. Conta com a ajuda do professor para a empreitada propriamente dita mas também como companhia do resto da sua vida sem data para acabar.