Cardus Edição 101, setembro 2021
Já tinha este livro faz alguns anos. Foi um presente de alguém que, por alguma razão, achou que eu deveria ler. E acho que já percebi porquê, depois de todos estes anos.
O autor do livro, Luigino Bruno, é um professor de economia Política em Roma e as suas áreas de investigação são a economia civil e a ética económica. Ora, é aqui que a coisa se torna interessante: este livro é a (re)descoberta do Livro do Génesis pelos olhos de este professor de economia.
O prefácio foi escrito por José Tolentino Mendonça que alerta o leitor para a pertinência desta obra: “A economia precisa de iniciativas assim para tornar-se no que ela é: uma ciência humana e não simplesmente técnica, um saber humanista e não uma roleta da sorte.”
E, de seguida, o autor começa a fazer a sua “análise“ do Génesis, essa “aventura da alma”.
“Falar da Europa e do Ocidente é falar de humanismo hebraico-cristão, nas suas várias declinações, rebentos, contaminações, doenças, reações, mas, principalmente, nos seus copiosos e extraordinários frutos de civilização. Este humanismo tem códigos de formação bem determinados. Um deles, o mais profundo e fecundo, é o grande código bíblico, que, desde o Génesis até ao Apocalipse, nos forneceu, ao longo de milénios, as palavras para dizer política e amor, morte e economia, esperança e desventura. (...)
(...) são as palavras bíblicas que alimentaram e inspiraram a nossa civilização. Centenas de gerações já releram e reviveram. Impregnam as nossas mais belas obras de arte, os sonhos de crianças e de adultos. Deram esperança em muitos exílios e escravidões, por que passamos e estamos a passar. Não há histórias de libertação maiores do que o Êxodo; feridas mais férteis que a de Jacob, bênção mais desesperada que a de Isaac, gargalhada mais séria que a de Sara...(...)”
Destaco o capítulo De Igual para Igual: Desde o Princípio. O autor faz uma análise brilhante da posição no mundo do homem e da mulher, dois olhares que se cruzam “de igual para igual”, desmistifica o “pecado original” e dá uma valente bofetada de luva branca a todos aqueles que no mundo inteiro viram ou continuam a ver diferenças de poder entre o homem e a mulher quer seja na vida em geral ou no trabalho.
“A história não começa com o pecado, mas com olhos que se cruzam de igual para igual.”