Cardus Edição 81, 01-06-2020
Estava quase a chegar ao fim do livro quando, numa noite, me fui deitar a pensar no Matias, a personagem central do livro (será?).
Não foi exatamente pensar no Matias. Acho que me senti próxima desta personagem. Foi como se estivesse estado com ele horas antes de me deitar. É que a personagem fica ali connosco, na sala, na varanda, no quarto.... Pensava em como muitos de nós escapam, por um triz de ser um Matias.
Após a leitura do livro, quando penso no que escrever sobre o mesmo vem me à cabeça um género de slogan: Não é com as emoções que não conseguimos lidar. O que é difícil de aguentar são os factos.
É um livro sobre a memória. E como esta nos pode tornar seus reféns, especialmente se for esquiva ou.... se não quisermos lembrar.
“O paradoxo da memória. Essa entidade esquiva, que nos apresenta as emoções como se fossem factos, e os factos como acontecimentos no tempo, independentes da nossa perceção.”
É a história de Matias, um adolescente aberto a receber todos os esplendores deste mundo tanto quanto a questioná-los. “Preparado para trepar muros e correr longas distâncias.”
Tem amigos e tem namorada. Tem a mãe que inventa uma língua própria e um tio demente. E tem uma irmã, a Cecilia.
Gosta de ler sobre o budismo, muito incentivado pelo seu professor de história.
Todo o enredo deste livro percorre aquilo que para os budismos se chama As Nobres Verdades. A primeira é o Dukkha que se refere ao sofrimento, a Segunda Nobre Verdade trata-se da constatação das causas de Dukkha; a Terceira Nobre Verdade anuncia que há um caminho que leva ao fim do Dukkha; a Quarta Nobre Verdade detalha o caminho que leva ao Nirvana e a cessação de todo o sofrimento.
Centremo-nos na sua relação com a irmã. Mais velha que Matias, não tão boa aluna e convicta de que o seu destino seria errante. Conversam sobre namorados, sobre o budismo e sobre o tio Elias.
O acontecimento trágico desta obra acontece com o desaparecimento de Cecilia. E, também, digo eu, o desaparecimento de Matias tal como o conhecíamos.
Matias lida com o desaparecimento não como se fosse um trauma. Lida com o desaparecimento da irmã nunca aceitando que há perguntas para as quais nunca teremos respostas e com a convicção de que perder faz parte da vida. Mas talvez sem nunca aceitar a perda.
Não sei se Matias cumpriu a quarta nobre verdade: cessação de sofrimento. Será o confronto com as respostas sobre o passado uma forma de resgatar tudo o que perdemos?
Lara Nilde