Cardus Edição 79, 01-05-2020

Livros

Página de Lara Nilde

Não se Encontra o que se Procura

Miguel Sousa Tavares

Talvez não seja claro mas, é um livro sobre o sentimento de liberdade.

E sobre o Verão.  Um intermitente sussurro de Rilke no ouvido do leitor: “Só o Verão merece ser vivido.”

Há muito verão nas páginas deste livro e na vida do autor.

Parece um diário ou um bloco de notas sobre o mundo do autor que nos permite viajar através das suas viagens ao Alentejo, Algarve, Croácia, Roma, Brasil ...

Destaco a chegada do autor a Milna, uma ilha de Brac situada na costa da Dalmácia. Todas as linhas relativas a esta viagem me sabem a mar e verão.

“Mas com Milna foi diferente.  Foi como dizem que são os amores à primeira vista. Foi como se alguma coisa vinda lá do infinito das minhas origens se reconhecesse subitamente na memória guardada nas pedras de Milna.

(...) Em Milna, eu estava de regresso a casa, como Ulisses, mas depois de anos ou gerações a navegar à vista.”

 A casa onde o autor ficou era pequena mas tinha dois pequenos luxos: um pátio interior com um limoeiro e um terraço na sala onde podia escutar o ruído das ondas.

“É para isso que serve o Mediterrâneo, para habitar os seus pátios e terraços, cheirar o aroma da alfazema, do alecrim, do limoeiro, nos seus jardins.”

Esta ilha era das menos turísticas e com as águas mais transparentes. O sinal de que o tempo de estadia na ilha estava a chegar ao fim era a chegada de novos barcos no porto.

“Como é que se regressa quando não se sabe porque se partiu?” 

No entanto, o autor assume o fascínio pela confusão dos povos e civilizações e fala-nos de Istambul. “Somos estranhos, mas íntimos, não somos daqui mas já por aqui passamos há muito, muito tempo: suponho que seja assim aquilo que a História construiu e aquilo que a História nunca esclareceu.” 

As referências ao nosso Sul são muitas, Algarve e Alentejo.

“É o Verão do Sul. Do calor sem tréguas (...) do grito das cigarras durante o dia ou das rãs durante a noite, das sombras que o luar deixa nos jardins, quando é lua cheia e toda a vida parece uma promessa de liberdade.” 

Viajamos também até à vida de alguns autores: Robert Louis Stevenson, Ernest Hemingway; Hugo Pratt...Se atentarmos bem ao modo como o autor “narra” ou conta a vida deles, percebemos que há algo que os une, há um traço, um padrão idêntico a todos no modo de viver e de escrever.

Mas qual a razão de escrever? São evocadas algumas respostas de outros autores, mas permito-me retirar a que eu anexei ao espírito do autor : “ Os grandes livros, os grandes romances- aqueles onde se inventa e nos socorremos de histórias e personagens que nunca existiram- são livros que desbravam, que mentem, que tornam possível o real que não  real, que interrompem a vida como ela é. Numa palavra, que libertam.”

Eu disse que era um livro sobre a liberdade.

Lara Nilde