Cardus Edição 85, 01-08-2020
Perguntei se o funcionário da livraria me poderia aconselhar um livro. Depois de uma conversa de um minuto sobre o que não gostava de ler pegou neste livro que vos trago: Stoner, de John Williams.
“Na verdade, é só um livro sobre a vida de um professor universitário”, disse ele. E assim percebi que tinha nas mãos um grande livro sobre a vida de alguém. De facto, o funcionário da livraria fez a descrição correta: é um livro sobre a vida de um professor universitário.
Talvez por proximidade gosto de livros sobre a vida de professores, mas este livro tem uma particularidade: o título do livro é o nome do protagonista do romance e isso poderia significar que aquela vida valia a pena ser lida.
A edição que comprei tem na capa algumas apreciações feitas por grandes escritores como Julian Barnes, Nick Hornby e até uma do ator Tom Hanks.
Todas elas atribuem a este romance a palavra triste.
“Um romance formidável de uma latejante tristeza” - Julian Barnes
“Brilhante, belo, inexoravelmente triste, sábio e elegante.” - Nick Hornby
Eu percebo a questão da tristeza, mas não sei se a vejo assim tão claramente neste romance. Conviver com a tristeza perto de nós, como se fosse uma dama de companhia significa que sejamos tristes? Se nós não a procuramos, mas ela insiste em ficar, não se entranhará em nós de tal forma que já não é tristeza e será apenas um modo de ser? De estar?
Se alguém escrevesse um livro sobre a vida de cada um de nós muito provavelmente diríamos: “mas na minha vida não se passa nada de interessante...”
Depois de ler esta obra, eu responderia: “Só se esse escritor for John Williams.”
O próprio autor considerou que Stoner é um escape para a realidade. Concluo, então que a diferença entre um mero diário de alcova e um grande romance reside na maneira como se conta a vida de alguém.
“Situado numa geração antes da do próprio Williams, o romance destaca-se não só pela sua clareza e inteligência, mas também pela maneira como tantas vezes o material banal, nada promissor é dramatizado.”
Stone sobreviveu à sua vida considerando que convivia bem com períodos de tristeza calmos desde que tivesse o consolo da literatura. Esta é uma história sobre a qualidade salvífica da literatura.
Filho único, é enviado pelos pais para a Universidade de Columbia para a Escola Agraria, de modo a seguir a vida humilde de seus pais.
Conhece um professor que faz nascer em Stoner o gosto pela literatura e resolve mudar de curso. Não diz de imediato aos pais, fá-lo mais tarde já quase no fim do curso, mas o momento em que o resolve fazer é como se estivéssemos a cortar as nossas unhas de olhos fechados.
“A mãe estava de frente para ele, mas não o via. Os olhos fechados e encolhidos, a respiração pesada, o rosto retorcido de dor, e os punhos fechados fincados nas bochechas. Com espanto Stoner percebeu que ela estava a chorar, profunda e silenciosamente, com a vergonha e o constrangimento de uma pessoa que raramente chora. Observou-a mais um instante; depois levantou-se pesadamente e saiu da sala. Subiu as escadas estreitas que levavam ao seu quarto no sótão; durante muito tempo ficou deitado na cama, de olhos fixos na escuridão por cima de si.”
Stoner nunca tivera propriamente consciência de quem era até este momento, a vida até ali estava traçada por ele sem nunca lhe perguntarem sobre os seus desejos.
Mas esta lucidez do protagonista não foi aplicada ao seu casamento, por exemplo. Destaco a forma como o autor descreve a esposa de Stoner. O leitor percebe que ela é doente, mas não sabe qual é a doença. Edith é toda ela uma atmosfera densa de quem, por força da educação regrada e controlada, nunca percebeu que todas as nossas escolhas têm consequências. Pior: as consequências nunca são equacionadas. Nunca são uma hipótese.
“Fazia um ponto cruz refinado e inútil, pintava aguarelas demasiado aguadas de paisagens brumosas e tocava piano sem vigor mas com precisão. Era, porém, ignorante no que tocava ao funcionamento do próprio corpo, nunca tratara de si própria sozinha um único dia da sua vida e nunca lhe teria passado pela cabeça que poderia ser responsável pelo bem-estar de outra pessoa.”
Acreditamos que Stoner vai ser feliz nesse casamento. Acreditamos até que Stoner é quem vai salvar Edith. Depois, estamos já presos, acorrentados por fios de algodão branco que nada mais não é do que o enredo deste casamento destrutivo nunca antes narrado em literatura.
Voltamos à tristeza. São vários os dilemas de Stoner: alistar-se para combater na Primeira Guerra Mundial ou ficar e lecionar Literatura, o seu grande amor?
Procurar a redenção na nostalgia, na angústia ou viver um caso amoroso que lhe devolve a consciência de si próprio?
Stoner viveu no abismo. E viver no abismo sem nunca tombar de modo a perder o chão é uma bravura. Por outro lado, passamos uma vida inteira atordoados com a profundidade que sabemos que está à nossa frente: tenebrosa e insondável.
Lara Nilde