Cardus Edição 88, 16-09-2020
É assumida a inspiração em clássicos da literatura como O Duplo de Dostoievski ou o Homem Duplicado de José Saramago. Podia escrever sobre isso pois o cerne deste livro é a suposta existência de um duplo.
Mas prefiro destacar a questão da identidade.
A personagem central é Hugo, um contrabaixista atormentado pelas suas dependências e falta de estrutura que decide levar a cabo um ano sabático a fim de procurar inspiração e conforto na companhia da sua família. Numa noite, assiste a um concerto de Luís Stockman e a sua vida não volta a ser como até então foi. O artista toca uma melodia que era sua. Aqui começa a emboscada de Hugo sobre quem é. Afinal Hugo nunca partilhara a melodia com ninguém nem nunca a tinha escrito. Como poderia ser possível que Stockman estivesse a tocar a mesma melodia?
Tudo se torna mais absurdo quando nos são descritas as semelhanças físicas entre os dois. E é este o mote para Hugo mergulhar no mar mais profundo da sua existência.
Pode-se viver com a sensação de que uma sombra paira em nós. Hugo viveu assim toda a sua vida. A sombra de quem nunca existiu ou chegou a ser sempre o acompanhou e sempre o fez sentir incompleto. A existência de um duplo seu que lhe rouba a sua arte fá-lo acreditar que já nada tem a perder. Quem de nós não procuraria saber quem é o outro. O outro que posso ser eu?
“ .... a pessoa de quem falo está viva. Vivíssima. Chama-se Luís Stockman e, para além de ser exatamente igual a mim, é completamente diferente. Tem tudo o que eu não tenho e, ainda por cima, roubou-me a única coisa que me pertencia.”
Hugo queria ser um grande artista. Talvez aquele que era o outro igual a si. Mas não é porque existe esse outro.
Na tentativa de perceber o absurdo que estava a viver, Hugo procura respostas na sua infância, a irmã gémea e o outro gémeo que não sobreviveu. Questionei-me se a inquietude de Hugo não poderá partir do ventre da sua mãe. Se a sombra do outro não nascera já com ele.
Nem sempre a procura das nossas sombras nos conduz a resultados iluminados ou altamente explicativos de nós próprios. Essa procura conduziu Hugo a um lugar dramático e escuro. Por vezes, temos que saber perder para as nossas paranoias, caso contrário, em vez de percebermos quem somos, esquecemo-nos.
“Como é que o seu irmão se sentia em relação a isso?
Do gémeo que nunca foi?
Sim
Nunca falamos muito sobre o assunto. a minha mãe costumava dizer-lhe que ele era como era, insatisfeito, inquieto, porque lhe faltava a sua metade. Dizia-o na brincadeira, quando éramos crianças. Mas depois, eu passava à porta do quarto dele e ouvia-o na cama, a chorar. Chorava a noite toda, às vezes. Eu na altura, não sabia porquê. Agora acho que era precisamente por isso. Ele sentia a falta do seu outro. Ou achava que sentia. Não sei. É tudo muito estúpido e muito confuso.”
Existirão sempre explicações para os absurdos desta vida?
Lara Nilde