Cardus Edição 86, 15-08-2020
Não sei se a comparação será justa, mas esta obra parece pincelada com a ideia central do livro "O Alquimista" de Paulo Coelho na medida em que a ideia transversal a todas as personagens é a de que o que importa é o caminho ou o que se faz no caminho e não chegar à meta.
É um livro dividido em três partes: Sem Casa, Para casa e Em Casa. Cada parte é dominada por uma personagem central diferente, mas todas estão, na verdade, relacionadas pelo fio do tempo. E das coisas. A palavra espiritual abunda em artigos que se referem a esta obra, mas eu não sei bem se interpretei dessa forma. Será espiritual? À semelhança de "O Alquimista", este livro tem personagens que num determinado tempo têm de fazer algo. Elas não percebem exatamente a razão, sabem até que pode nem parecer realista, mas têm que cumprir um caminho. Muito português, não é? Esta coisa de termos de cumprir um caminho? Neste sentido, Yann Martel acertou bem no espírito português.
Fiz alguma pesquisa sobre o livro e li algures que se tratava de um realismo mágico que se caracteriza com uma especial preocupação em mostrar o irreal, o estranho como algo que faz parte do quotidiano comum. Estaremos a falar de um surrealismo?
E porquê que assim é? Porque existem macacos que vivem dentro das pessoas. Agatha Christie poderia ser a autora da Bíblia. E, preparem-se: a maior dor de todas, a dor da perda faz-nos andar "às arrecuas".
Pensei tanto nisso. A perda faz-nos andar às arrecuas.
"Porquê? Por que razão fazes isto? Porque não andas como uma pessoa normal? Basta deste disparate!", gritara-lhe o tio mais que uma vez. Em resposta, Tomás apresentara-lhe bons argumentos em defesa da sua forma de andar. Não fará mais sentido enfrentar os elementos- o vento, a chuva, o sol, o ataque dos insetos, o mau humor dos estranhos, a incerteza do futuro - com o escudo da nossa nuca, as costas do casaco, o traseiro das calças? São a nossa proteção, a nossa armadura, são feitos para aguentar os caprichos do destino. Entretanto, quando se anda às arrecuas, as nossas partes mais delicadas - o rosto, o peito, os pormenores mais atraentes da nossa roupa - estão protegidas do mundo cruel que nos espera, apenas exibidas quando e perante quem queremos com uma simples volta voluntária que nos destrói o anonimato."
O trágico e o cómico dançam juntos nesta obra, mas achei que o trágico dançou melhor. É o elemento trágico que liga as personagens.
Lara Nilde