Cardus Edição 78, 16-04-2020
Frank McCourt foi professor do ensino secundário em Nova Iorque durante trinta anos. Eu gostaria de ter tido este professor. Pelo menos durante um ano!
Nós, professores, ouvimos frequentemente teorias psicológicas demagógicas e outras tantas terminadas em “lógicas”, de que devemos saber “ver bem” os alunos, devemos escutar com atenção, ver para além do visível.... O que nunca ninguém fala é que os alunos, em particular do ensino secundário, também devem adquirir a capacidade de “ver bem” os professores.
McCourt teve uma “infância miserável” na Irlanda.
“Devia haver uma medalha para as pessoas que resistem a uma infância miserável e se tornam professores, e eu devia ser a primeira pessoa da fila para receber não só a medalha como todas as condecorações inerentes às desgraças subsequentes.”
O autor chegou ao mundo dos livros tarde. O seu primeiro livro “As cinzas de Ângela” foi publicado em 1996, quando o autor tinha 76 anos. Ele mesmo lança a pergunta” Então, porque é que demorei tanto? Era professor - foi por isso que demorei tanto. (...) Quem dá cinco aulas por dia, cinco dias por semana, não se sente inclinado a ir para casa esvaziar a cabeça e criar um pouco de prosa imortal.”
Cresceu na Irlanda, mas nasceu em Brooklyn, Nova Iorque, tendo regressado anos mais tarde aos Estados Unidos e aí exercido a função de professor do ensino secundário. Apesar dos julgamentos pesados que faz ao sistema de ensino americano, nunca perde o humor honesto e, digo eu, piedoso de si próprio, na medida em que não se inibe em ver-se ao espelho e criticar. Aquele tipo de humor em que nós nunca sabemos... se é para rir ou chorar. Típico dos Irlandeses apesar da influente sombra da igreja e da noção de pecado sempre presente no crescimento do autor do livro.
“Na América, os médicos, os advogados, os generais, os atores, as pessoas da televisão e os políticos são admirados e recompensados. Mas os professores não. Os professores são as sopeiras das profissões. São as pessoas a quem mandam usar a porta de serviço ou entrar pelas traseiras. São felicitados por terem tanto tempo livre. São referidos com condescendência e veneração, mas só em retrospetiva.”
Pode-se dizer que foi a própria vida deste professor que lhe salvou a vida enquanto professor.
“Os meus alunos não sabiam que estava ali um homem a tentar fugir de um casulo de história e catolicismo da Irlanda, mas a deixar pedaços desse casulo por toda a parte.”
São muitas as considerações sobre os alunos e sobre o modus operandi das aulas. “No primeiro dia de aulas devem ficar à porta da sala de aula e mostrar aos alunos como estão contentes com a presença deles. Fiquem de pé. Qualquer dramaturgo vos dirá que, quando o ator se senta, a peça perde o interesse. A melhor coisa a fazer é marcarem a vossa presença, esperando pelos alunos no corredor. Fora da sala, digo eu. É o vosso território e estando lá fora, serão vistos como professores fortes, sem medo, preparados para enfrentar o enxame. Uma turma é isso, um enxame. E vocês são professores –guerreiros. (...) Nunca os deixem invadir o vosso território. Nunca. E lembrem-se: os professores que se sentam ou que ficam atrás da secretaria são, na sua essência, pessoas inseguras e devem escolher outra profissão.”
Há uma enfâse muito grande nesta ideia de que a sala de aula é território do professor e que está constantemente sob ameaça assim que toca para os alunos entrarem. Os alunos não querem a sala em si mesma, eles querem ver o Rei Leão ferido numa pata.
Todos os professores têm que se deparar com o problema das faltas. Ou melhor, com o problema da justificação das faltas. Eu própria relembro uma pérola. Recebi uma justificação de falta assinada pela encarregada de educação onde se podia ler: a minha filha faltou porque estava “mal indisposta.”
Este assunto também é descrito neste livro como As Grandes Desculpas Americanas ou As Grandes Mentiras Americanas.
“Naquela gaveta estavam exemplos de talentos americanos nunca mencionados na música, na história ou nos estudos académicos. Como poderia eu ignorar aquela arca do tesouro, aquelas pérolas de ficção, fantasia, criatividade, autopiedade, problemas familiares, caldeiras a explodirem, tetos a caírem, incêndios a consumirem quarteirões inteiros, bebés e animais de estimação a fazerem chichi para cima dos trabalhos de casa, nascimentos inesperados, ataques cardíacos, tromboses, abortos, assaltos? Estavam ali os melhores escritos dos liceus americanos, textos duros, reais, urgentes, lúcidos, breves, contando todo o tipo de mentiras: a lareira pegou fogo, o fogo alastrou ao papel de parede e os bombeiros obrigaram-nos a estar toda a noite fora de casa. (...)
O Arnold não fez o trabalho de casa porque ontem, quando ia a sair do comboio, a porta fechou-se, a mochila dele ficou presa e foi levada pelo comboio (...)
O cão do irmão comeu-lhe o trabalho de casa. Só espero que fique sufocado. (...)”
É um livro sobre relações humanas, pois claro. Mas, acima de tudo, é um livro comovente e divertido sobre aquele cliché que tantas vezes se aplica aos professores: inspiração.