Cardus Edição 73, 01-02-2020

Livros

Página de Lara Nilde

Princípio de Karenina

Afonso Cruz

“Comecei a perceber que somos todos feitos de emigrantes, destas coisas estranhas que entram dentro de nós. Somos povoados de estrangeiro.”

Habita em nós a vontade do proibido e do estranho. Para os mais atentos, esse estranho terá uma cara e deixa de ser o outro para ser alterne connosco. Essa dança vem desde a infância e o estranho baila ao nosso lado.

Dizem-nos para evitar, que faz mal e que não fica bem e cresce cada vez mais de modo a ficarmos dentro da sua sombra nos passeios em dia de sol e nas paredes das casas.

Tudo o que é assombrado é iluminado porque nos chama.  E porque, muitas vezes, está dentro de nós. 

Com esta leitura entendi que para todos nós a Cochinchina ainda existe. Existe como essa localização imprecisa mas longe e onde vivem “outros” tão “outros” que não são como nós. Esses vivem num clima tropical húmido, fortes tormentas e chuvas abundantes.

Chega o dia em que essa Cochinchina vem até nós, estranha e proibida. Vem convidar-nos a sair do lugar de onde nos disseram para nunca sair porque era perigoso.

“Se uma pessoa souber onde vai morrer, evitará esse lugar. A vida, porém, levar-lhe-á a esse sítio. O meu era a Cochinchina.”

Este pai, personagem central do livro, faz uma viagem até aos confins do mundo para perceber aquilo que habita dentro dele e que sempre evitou e, por essa razão, foi tão infeliz entregue a imensos silêncios e casas de janelas fechadas para o mundo.

É, se assim quisermos, um livro que escancara em nós esta tendência fatal para adiarmos sermos nós mesmos e vivermos assim com um terror no “látego do vento” a anunciar que um dia prestaremos contas das relações que não foram próximas, dos amores que não vivemos, do amor que não vivemos, dos nossos erros e paixões.

Tal como Anna Karenina, personagem central no romance de Tolstoi com o mesmo nome, este pai sente que o amor pode quebrar uma certa paz escura para nos deixar a sós com sentimento de culpa e medo.

Lara Nilde