Cardus Edição 83, 01-07-2020
Não se trata de um livro de ficção ou um livro que fez parte da minha lista de livros por ler. Quando o vi na estante da livraria, percebi que podia fechar um ciclo com este livro.
Em 2017 fiz uma viagem à Tailândia e desde que voltei, nunca mais falei dessa viagem. Não tive vontade de falar da viagem, das pessoas, da paisagem...
Nem tenho o menor interesse em voltar. E eu sei qual a razão e quase me envergonho. Para mim, é como se fossem “outros”. Tão “outros” que pertencem a um outro paradigma, incomensurável com o nosso. São tão “outros” nos gestos, na maneira de falar, no que fazem. Lembro-me dos sorrisos sempre colocados. Colocados. Não sei quanto a vocês, mas eu sei quando me colocam um sorriso nos lábios para fins comerciais. E não gosto. Mas será que podemos censurar?
Não me senti confortável em vários lugares. Especialmente pequenas aldeias zoológicas humanas. Sei que muitos atribuem o nome de exotismo a algumas experiências que a Tailândia proporciona, mas eu não vi isso.
O livro que trago esta quinzena é sobre a Tailândia e senti que um livro sobre a Tailândia com o título “O caminho imperfeito” só podia ser para eu ler.
Destaco uma passagem em que o autor evoca uma frase de Marc Twain: “A viagem é fatal para o preconceito, a intolerância e a estreiteza de espírito.”
Parece uma contradição ter destacado essa frase quando início este texto a dizer que na Tailândia senti que eles são “outros”. Mas não é contraditório. O que me leva a considerá-los tão “outros” é eu saber que estou aqui, neste momento, em Portugal e que todos com quem me cruzei na viagem ao Sudoeste Asiático estão “lá”, num outro fuso horário, com um outro clima, outra religião, outra linguagem, outra luta.
Ler este livro foi uma espécie de psicanálise sobre a minha relação com a Tailândia. O que se terá passado comigo para não ter nada a dizer sobre o que lá experienciei? Mas por que razão não sinto nada?
Visitei uma tribo numa aldeia que tem o nome adotado por nós de Mulheres Girafa, são as Padaung. Penso que todos nós já vimos fotografias dessas mulheres. Pelo que percebi, alguns artigos sobre viagens falam da beleza das argolas de bronze que as mulheres carregam ao pescoço. Eu não vi essa beleza. Vi sorrisos no rosto das mulheres, vi crianças, mas não consegui ver a beleza. Eu sei que é uma questão cultural. Não se equivoquem. Eu não vi beleza na exposição, no bilhete que paguei para as visitar.
Terá sido o mesmo valor que pagamos para ir ao teatro? Ao oceanário?
“À entrada da aldeia das tribos, havia desenhos que apresentavam a espiral metálica que as mulheres Padaung usam no pescoço. Um desses desenhos mostrava os ossos e dava a entender que, por ação desse artefacto de metal, as vértebras se separavam do crânio - o que é um mito. Havia também uma dessas espirais sobre a mesa, podíamos mexer-lhe ou pesá-la numa balança.
Não me recordo do preço dos bilhetes.”
Estas tribos são refugiados de Myanmar que ali encontraram condições para manter as suas tradições.
Encontraram?
“Os coreanos, a medo, esticavam o indicador e tocavam-lhes nas espirais à volta do pescoço. Afastavam logo os dedos, muito bruscamente, como se queimasse, e davam grandes gargalhadas coletivas(...) Depois das fotografias, as mulheres Padaung ficavam a estender a mão.”
O livro vai para além da Tailândia turística e das suas praias paradisíacas. Nem me recordo de alguma referência a esse aspeto. É repleto de curiosidades e acima de tudo, seja para a Tailândia ou para aqui ao lado, é sobre o caminho que fazemos quando viajamos.
“O distante perde distância quando se lá vai. Os lugares mais longínquos são aqueles onde nunca se esteve. Quando já se foi a um lugar, mesmo que seja preciso atravessar um planeta, fica a saber-se que é possível fazer esse caminho. Deixa de pertencer ao desconhecido sem detalhes, ganha formas imprevistas. Há vida lá como há vida aqui.
Mas a realidade tem quilómetros, milhas aéreas, bilhetes de avião, passaportes. A realidade não é barata”
Se os outros são sempre os outros, nós que viajamos somos sempre nós no meio dos outros e julgamos os seus hábitos e sistema de crenças à luz dos nossos. Conseguiremos evitar? A mulher Padaung que sorriu para mim, terá sorrido hoje de igual forma? Mas a pergunta que me intriga é esta: ela quer sorrir?
“Aonde quer que vá levo tudo isto comigo. Chego a Banguecoque e, num copo de água, encontro os copos de água da minha madrinha, enchidos por um jarro tapado com um pano- ouço a sua voz dizer-me: bebe.”
Acho que José Luís Peixoto conseguiu neste livro, ir um pouco mais fundo no icebergue emocional que nasceu em mim em relação a este lugar pois aborda vários factos que não são falados ou que não estão escritos em lugar algum, mas no inconsciente dos tailandeses.
“Sudarat explicou-me que irritação significa fraqueza, impaciência significa falta de controlo. É muito difícil encontrar um tailandês que levante a voz.
Críticas publicas são insuportáveis. Faz falta prestar atenção aos sinais menos óbvios. Um sorriso pode significar embaraço, pode ser uma fuga. (...) Ninguém discorda de ninguém. À vista, o desacordo não existe. Tudo é preferível a uma disputa.
(...)
Mas os tailandeses preferem a mentira ao conflito? - perguntei.
Sudarat sorriu.
Lara Nilde