Cardus Edição 121, maio 2023

LIVROS


Lara Nilde





O perigo de estar no meu perfeito juízo


ROSA MONTERO


Na senda de A Louca da Casa, volto à Rosa Montero com esta sua obra como quem volta a um lugar onde já foi feliz e espera encontrar lá a felicidade à nossa espera enquanto fuma um cigarro. E encontrei.

Novamente, uma mistura de ficção, autobiografia e enciclopédia da vida de vários escritores, ficamos mais perto dos escritores … que perderam o juízo.

Rosa fala do ato de escrita dos outros e do seu.

“Às vezes, a cabeça  escreve maravilhosamente por si só. Às vezes a explosão do nosso crânio ilumina-se como na explosão de uma supernova. Aí está toda essa energia e esse pó das estrelas a girar e a dançar e a emitir a música das esferas, o som poderoso da criação do mundo. E temos a intuição de que a tal obra está perto, muito perto, quase ao alcance dos dedos, esse texto essencial que nos revelaria o sentido da vida e ao qual, infelizmente, nunca chegaremos. Quanto mais gostamos da ideia do que iremos escrever, mais medo temos de não estarmos à altura da nossa musa. Ronda sempre a obra, como também ronda a loucura. A questão é saber quem acabará por ganhar.”

Uma busca inquieta para saber as razões por trás dos escritores escreverem o que escrevem. Alguns escritores terão, também, refletido sobre isso, outros ... escrevem simplesmente. Mas Rosa faz a análise.

“Retomando a frase formidável de Ferenczi, reconheço que, com efeito, há uma parte de mim que sabe tudo e não sente nada. Bom, dizer que não sente nada não é totalmente verdadeiro: de facto, essa parte sente alguma compreensão e simpatia pela outra parte, a que sofre, mas a partir de um lugar impávido e olímpico, como o entomólogo que analisa um coleóptero com um olhar desapaixonado, embora compassivo. Que entomólogo não amaria a sua espécie favorita de escaravelho, quando passou toda a vida a esquadrinhar a forma precisa dos seus élitros? Porém, é uma criatura tão pequena! (…)

Ora bem, nós romancistas somos ao mesmo tempo insetos a espernear e estudiosos que observam esse espernear. Por exemplo, caímos no ridículo de uma história amorosa e sentimo-nos pessimamente, e a observadora analisa imediatamente as tontices que fazemos, que são as mesmas que muitos outros fazem, e até se desmancha a rir a  constatar até que ponto os humanos são pequenos e ridículos. O simples facto de tentar perceber como nos comportamos todos é já um bem que consola e protege; mas se, além disso, conseguimos escrever alguma coisa, se conseguimos transformar a dor em algo criativo, roçamos então a sensação se sermos invulneráveis.”

E a loucura? Essa “louca da casa”? É ela que dita uma boa obra? O sofrimento pessoal do artista escritor será uma premissa necessária para concluir uma boa obra? Sermos “normais” tem um custo?

“Por isso somos caçadores incansáveis do que é sublime. Por isso escrevemos e pintamos e esculpimos e compomos, para roubar ao Sol um pedacinho do seu fogo. Perseguimos satoris e amores desenfreados, para que o brilho do que é extraordinário cegue os nossos olhos e nos permita ignorar a escuridão. E também por isso se verifica um fenómeno desconcertante para os especialistas: muitas vezes, os loucos diagnosticados não querem deixar de o ser. Ou, no mínimo, sentem que, ao curar-se, perdem alguma coisa. Uma quantidade surpreendente de pessoas que sofre o que nos parece ser um transtorno preferiria não suprimir esse aspeto da sua personalidade.”


Lara Nilde