Cardus Edição 94, fevereiro 2021
A ideia deste livro pode parecer sinistra a muitos: o narrador desta história é um nascituro ainda sem nome e entendido em muitos assuntos.
Acompanha o dia a dia de sua mãe, ouve tudo o que se passa perto de sua mãe e ... sabe de conspirações!
Parece uma comédia, eu sei. Mas é exatamente o contrário. Este ser ainda por nascer é o único que sabe a verdade e verdade pode ser muitas coisas. Pode ser aquilo que se vê e aquilo que se sente. Ele conhece as duas, as duas verdades de sua mãe. Graças a ela, também conhece boa parte do mundo em que vivemos pois são longos e vários os retratos sócio políticos presentes nesta obra.
“Mas não me lamento face à boa sorte. Sabia desde o princípio, quando abri o pano de ouro que envolvia a dádiva da consciência, que podia ter chegado a um sítio pior numa época muito pior. As generalidades já são claras e, perante elas, os meus problemas pessoais são, ou deveriam ser, irrisórios. Há muito a celebrar. Vou herdar uma situação de modernidade (higiene, férias, anestésicos, candeeiros de leitura, laranjas no Inverno) e habitar um canto privilegiado no planeta - a Europa Ocidental bem alimentada e livre de pestes. A velha Europa, esclerótica, relativamente generosa, atormentada pelos seus fantasmas, vulnerável aos opressores, insegura, destino de eleição de milhões de infelizes.”
A vida deste narrador é já cheia de vícios: álcool e maquinações de morte! O narrador parece uma espécie de coro grego vindo do futuro mas sem capacidades físicas para anunciar uma tragédia. A não ser alguns pontapés, vá.
Testemunha passiva de uma conspiração de morte contra seu pai biológico, faz algumas considerações sobre o amor como se tivesse uns 50 anos de idade.
“... Em teoria têm igual poder um sobre o outro. Sai desta casa. Nunca mais voltes. Ou eu chamo a polícia para nos prender aos dois. Mas até eu sei que o amor não é regido pela lógica e que o poder não é distribuído uniformemente. Os amantes chegam aos primeiros beijos com cicatrizes e também com nostalgia. Nem sempre estão à procura de uma posição vantajosa. Uns precisam de proteção, outros só pressionam para conseguir a híper - realidade do êxtase, e para isso dizem mentiras atrozes e fazem sacrifícios irracionais. Mas raramente pedem aquilo de que precisam ou que desejam. A memória é fraca no que toca a insucessos passados. A infância cintila sob a pele do adulto, o que pode ou não pode ser útil. O mesmo acontece com as leis da hereditariedade a que uma personalidade está sujeita. Os amantes não sabem que o livre arbítrio não existe. Não ouvi radionovelas suficientes para saber mais que isto, embora as canções pop me tenham ensinado que em Dezembro eles não sentem o mesmo que sentiam em Maio...”
Qualquer semelhança com Hamlet ... não é coincidência. Mas conseguirá este nascituro vingar a morte do pai?