Cardus Edição 129, janeiro 2024

LIVROS (e Poemas)

Lara Nilde


Litania para o Natal de 1967


Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos pedir contas do nosso tempo

David de Jesus Mourão-Ferreira


Não me recordo como cheguei a este poema.

Faço questão de o mostrar e ler aos meus alunos antes das férias de Natal. Claro que tenho que esclarecer algum vocabulário, não sabem o que significa litania, por exemplo.

Não lhes entra como um clássico poema alegre de natal. Devem até achar que há um lado muito sinistro em mim por lhes mostrar este poema.

Mas tenho a certeza que poucos esquecem.

Claro que a repetição ajuda.

Mal eles sabem o quanto gosto deste poema. Mal eles sabem que para mim, é sobre esperança.

Haja o que houver, ELE nasce à meia noite em ponto. Esta noite.

Talvez seja um “menino Jesus” que nos vem “pedir contas do nosso tempo”, é certo. Diz no poema.

Não advogo um Deus punidor, mas ele terá o seu direito.

Convido os leitores a pensarem no mundo e, depois, a lerem o poema.

“… e já anda um terror no látego do vento”.

Feliz ano!

Lara Nilde