Cardus Edição 77, 01-04-2020
Desenganem-se aqueles que julgam que este é um livro esotérico. Não é. Mas lida, em grande parte, com aquilo que não se vê.
O livro é uma transcrição dos diálogos estabelecidos entre Luís Ramos e F. Carvalho Rodrigues em 1994 na Antena 1 da Rádio Difusão Portuguesa.
É um livro sobre a ciência e o impacto desta nas nossas vidas. Nos dias que correm, falar sobre a ciência é falar sobre o mal, o bem, a ética, a moral e outros assuntos aos quais a religião também reponde. E é nesta dança das fronteiras entre estas duas que este livro ganha vida numa linguagem em nada “rato de laboratório”.
Passo a explicar o título do livro. Descartes, filosofo e matemático francês, começava as suas aulas com essa expressão. Facto só por si espantoso uma vez que estamos a falar de um matemático apaixonado pelo rigor dos cálculos e métodos. Mas, pelo que parece, essa forma de iniciar as aulas seria um modo de alertar relativamente ao futuro: “não tenham medo ...”
Como são variados os assuntos abordados nestes diálogos, destacarei apenas os mais epistemológicos.
“Analistas de símbolos, portadores de mensagem. Eis no que, cerca de um terço de nós nos tornamos. Acreditamos, então, que o espírito domina a matéria. (...) de facto. Estamos ligados, estamos em empatia com milhões de outros seres pela mensagem. Inventamos até uma palavra para definir esse território. Chamamos-lhe ciberespaço. É mais do que a superfície do planeta Terra porque se suporta, também, nos satélites pendurados no campo gravítico da Terra, mas vai para além do espaço porque nos toca a Alma.”
Talvez os anjos, então, seremos nós. Nós é que somos os mensageiros... do espaço e dentro da teia.
Mas tudo isso, esses discursos, alguns demagógicos sobre se somos essa simbiose de homem com máquina, abundam e já acusamos algum cansaço.
No entanto, raramente se levanta a questão do medo ... das máquinas.
“Vamos todos trabalhar dentro de uma máquina que é um carro; depois, estamos com outra máquina da qual temos um medo terrível porque passou para além do mecanicamente, do automaticamente, do imediatamente, que é o computador.
LR- E tudo isto graças a Deus?
CR- Não! Isto foi programado por Deus, mas aconteceu neste século. É curioso que o medo que nós temos dos computadores é um medo que Deus também tem. Deus tem um medo semelhante ao que nós temos dos computadores.
Vamos para o séc. XXI com essas máquinas, com um pavor terrível, porque uma máquina que é construída à nossa imagem e semelhança, porque aceita linguagem é uma máquina que mete medo. Ao Luís não lhe custa nada dizer: “Ontem perdi um jogo de xadrez com o Kasparov” toda a gente aceita, mas se disser: “perdi com a não sei o quê 3000...” as pessoas olham para si e pensam que já não é assim tão inteligente.”
Curioso como nós tratamos a tecnologia por tu. Falamos com as máquinas, atribuímos sentimentos e qualidades às máquinas. Há quem trate as máquinas de lavar a roupa ou loiça por… Maria! Dizemos que o nosso computador está lento ou, pior... está à espera. Na verdade, somos nós que esperamos pelas máquinas. Aceitamos com a maior da rigidez civilizacional que as máquinas têm as suas próprias regras. Mas não aceitamos uma opinião diferente da nossa. Ah! Isso é que não!
Lara Nilde