Cardus Edição 91, 01-11-2020
Acho Mathias Énard um escritor difícil. Escreve como se fosse um longo poema pronto para ser dissecado numa qualquer aula de recursos estilísticos, mas este Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes é extraordinariamente surpreendente. O livro parece uma longa música que toca ao som de um incenso árabe.
É uma história imaginada. Em parte. Então é o seguinte: parece que Mathias Énard descobriu uma biografia de Miguel Ângelo e tomou conhecimento de um convite que este recebeu por parte de um sultão de Constantinopla para arquitetar uma ponte sobre o Corno de Ouro.
“Imagina-se a surpresa do artista, os seus olhos arregalados. O sultão de Constantinopla. O Grão-Turco. Revira a carta entre os dedos. O papel encerado é uma das mais belas mais suaves matérias que existem.”
É assim que começa este romance, com o desembarque a 13 de Maio de 1506 em Constantinopla desse artista Miguel Ângelo.
“É claro que Istambul era então bem diferente; chamavam-lhe sobretudo Constantinopla; imperava apenas Santa Sofia, sem a Mesquita Azul; a margem oriental do Bósforo era desolada, o grande bazar não era ainda aquela imensa teia de aranha onde se perdem os turistas do mundo inteiro para lá serem devorados. O Império já não era romano e não era ainda o Império, a cidade oscilava entre Otomanos, Gregos, Judeus e Latinos; o sultão tinha por nome Bayazid, o segundo, apelidado o Santo, o Piedoso, o Justo.”
Miguel Ângelo aceita este convite como uma retaliação ao papa Júlio II por este não lhe pagar o que deve da edificação de um túmulo em Roma.
“Miguel Ângelo pragueja contra Júlio II, o papa guerreiro e autoritário que tão mal o tratou. Miguel Ângelo é orgulhoso. Miguel Ângelo tem a consciência de ser um artista de valor.”
E também porque o convite fora feito anteriormente a Leonardo da Vinci, o “pacóvio que despreza a escultura.”
O mais belo deste romance não é a ponte que nunca chega a existir. São outras pontes que são desenhadas entre as personagens. Pontes feitas de poesia, noites de álcool e música encantada. A ponte que se ergue do Renascimento ao mundo otomano.
É uma história de Reis e de Elefantes que dão sorte. As batalhas... “Sejam turcos ou romanos, os poderosos humilham-nos sempre.”
Lara Nilde