Cardus Edição 92, 01-12-2020
Acredito que os livros são coisas que nos acontecem.
Metaforicamente, é como irmos na rua e levarmos com um livro na cabeça.
Volto ao Afonso Cruz. Este livro faz parte do Plano Nacional de Leitura do ... 7º ano. A história parece ser indicada para um público mais juvenil, mas questionei-me se os miúdos dessa faixa etária iriam compreender os voos de Afonso Cruz durante a narrativa.
É a história de Vivaldo Bonfim que devora e acaba devorado pelos livros.
“Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo.”
A história é contada pelo filho, Elias Bonfim, que inicia uma busca pelo pai através dos clássicos da literatura que se encontram no sótão da casa da avó. Tenta encontrar os pais no meio do espaço e tempo dos clássicos (já disse... porque os livros nos acontecem e nós vamos por eles adentro, certo?!).
“Entrei em casa da minha avó e pus um cachecol.
- Não achas que está calor para isso?
- Não é assim no lugar para onde vou.
- Não te esqueças da hora de jantar.
Ignorei o conselho da minha avó e apanhei o comboio para São Petersburgo: lá fui nessa viagem de tantas horas em direção a Vladivostok. Levava apenas uma pequena mochila e o mapa que o meu pai tinha desenhado. Atravessar a Rússia significa percorrer onze fusos horários, quando numa ponta do país é de dia, na outra é de noite. A Rússia é como a alma humana. Se tem um lado luminoso é porque a outra ponta está no escuro. Somos todos feitos desta estranha mistura de fusos horários.”
Clássicos como A Ilha do Dr. Moreau de H. G. Wells, Crime e Castigo de Dostoievski e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury.
Não encontra o pai. Talvez encontre uma redenção qualquer e um entendimento elevado da vida e da memória.
“Porque nós somos feitos de histórias, não é de a-dê-enes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros. É de histórias.”
Para além da busca do pai, existe uma história paralela e dramática sobre a amizade. É aqui que o livro fica mais denso e surpreende perto do fim. Questionei-me qual a lição que um miúdo de doze anos poderia tirar deste fim. Não ficará apenas ...triste?
Talvez teria sido melhor um eufemismo. Porque todos sabemos que não entramos para dentro dos livros e desaparecemos. Mas eu não sou Afonso Cruz.