Cardus Edição 133, maio 2024
Sobre o amor de mãe ou irmãos. Estaremos a falar do mesmo tipo de amor?
Se Deus estivesse entre nós ele seria todas as mães. Mesmo aquelas que só são mães dentro de si, mesmo as mais distantes porque a vida assim ditou, mesmo as que não são amadas pelos filhos.
Este Deus na Escuridão é uma mãe.
Estamos na Madeira e esta é a história de dois irmãos, Felicíssimo e Pouquinho. Uma história muito delicada.
Pouquinho é o mais novo e nasce com um problema físico incomum. Assim que ele nasce, o irmão mais velho encabeça a tarefa de cuidar do irmão. Aquele irmão doente, mas santificado.
"Quando nasce uma cria, há um planeta com o seu nome onde só sua mãe habita. Eu, no entanto, era sobretudo sozinho, e a ideia de nos chegar alguém, alguém que seria dos nossos, feito de nossos rostos, a meias com nossos narizes e olhos, queixos largos e lábios finos, era a ideia mais incrível, como se o Próprio Deus nos desse visita, nos cedesse pedaço do seu corpo."
Este irmão sente como sua mãe para com o mais novo e sente, também, como irmão para sua mãe.
Ele é a mãe do seu irmão e irmão da sua mãe. Mas é também uma criança com vontades de criança.
Aqueles pais e aqueles filhos são a família sagrada aumentada a quem, de certo modo, nasce um cristo defeituoso que ilumina o caminho porque nunca irão deixar de cuidar. Em especial para Felicíssimo, aquele Cristo é uma missão.
Destaco uma nuance que pode passar ao lado do leitor: aquele menino que nasce criou novos afetos. A figura paterna é um homem sem o toque, sem um abraço, sem afetos observáveis. Para além de todas as belíssimas (as mais belas) palavras que falam sobre as mães, achei de uma especial delicadeza o modo como Felicíssimo procura consolar aquele pai de pedra que também sofre.
"Quando não se acredita com o coração, é importante acreditar com os braços, com os pulmões ou com o estômago. A vida desafia por todo o lado, e a resistência tem de ir buscar sua ciência a qualquer pulsação, qualquer fluxo, qualquer golfada de ar. Até para amar. Maioria do amor é com os braços. Maioria do amor é feito com os braços. Com a força das pernas, com a cabeça obstinada procurando soluções para proteger. Meu pai amava pela fome. Naqueles dias, no entanto, nenhum amor parecia ter respaldo. Era à procura de onde doer. Porque talvez doesse tudo e não conseguisse sentir ou pensar de outra forma."
Lara Nilde