Cardus Edição 97, maio 2021

Livros

Página de Lara Nilde

O ano do Pensamento Mágico

Joan Didion


Mesmo após a leitura desta obra demorei a perceber a relação da mesma com o título.

Alguns anos depois, fui investigar qual o significado ou o que era isso do Pensamento Mágico. Pelo que percebi, o Pensamento Mágico será uma forma de evasão da realidade interna ou externa e a criação de uma outra realidade mental. Assim a realidade não é a da experiência mas sim a do pensamento. Parece-me algo nada novo e tão banal que me atrevo a dizer que todos nós fazemos essa experiência. Não satisfeita, fui pesquisar melhor o que era isso do Pensamento Mágico e encontrei explicações mais interessantes. Pensamento Mágico é um termo usado para descrever correlações entre eventos. “No caso da psicologia clínica, o Pensamento Mágico é uma condição que faz com que o paciente experimente um medo irracional de realizar certos atos ou ter certos pensamentos, porque ele assume relações entre as suas ações e calamidades ameaçadoras”. Na psicologia Junguiana, o foco não está tanto na relação de causalidade, mas sim no significado da co-ocorrência entre certos eventos.

Esta última definição parece ser aquela que melhor se adapta a esta obra. O Ano do Pensamento Mágico é sobre a morte de um marido e o tormento de uma filha doente. Estes dois acontecimentos dão-se com quatro dias a separá-los. A obra revela como Didion lidou com a situação nos meses que se seguiram, a tentativa de atribuir um sentido a algo absolutamente inesperado.

Uma das imagens que guardo desta obra é a cena da véspera de Ano Novo, depois de terem ido visitar a filha no hospital, em que Didion e o marido se sentam para jantar e tudo muda. O marido tem um ataque fulminante e morre. Didion carrega na ideia de que de um segundo para o outro tudo pode mudar.

“A vida modifica-se rapidamente.
A vida modifica-se num instante.
Sentamo-nos para jantar e a vida, como a conhecemos, acaba.
A questão da autocompaixão.”

Naquela “primeira noite” a autora inicia o seu Pensamento Mágico: precisava ficar só para que ele pudesse voltar.

 “O Verão ia avançando, uns meses após a noite em que senti necessidade de ficar sozinha para que ele pudesse voltar, quando reconheci que durante o Inverno e a Primavera, ocasiões houvera em que fora incapaz de pensar racionalmente. Pensava como pensam as crianças, como se os meus pensamentos ou desejos tivessem o poder de inverter a narrativa, modificar o desfecho. No meu caso, o pensamento desordenado fora disfarçado, ninguém mais dera por ele, fora escondido até de mim mesma, mas fora, em retrospetiva, simultaneamente urgente e constante.”

Num tom quase jornalístico, Didion parece traçar uma investigação de si mesma enquanto agente participativa de mortes e de como tudo decorreu: a dor da perda e a questão da superação. Se existir.


Lara Nilde