Cardus Edição 106, fevereiro 2022

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D'este viver aqui neste papel descripto
Cartas da Guerra

António Lobo Antunes


Em janeiro cabe um ano e eu achei que conseguiria terminar três dos livros que estou a ler. Mas  este ano de janeiro já começa denso e esperançoso e fui-me ocupando de outras coisas que não me deixaram terminar um livro. Assim, fui buscar à estante um livro que li em 2005.

Organizado por Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, D`este viver aqui neste papel descripto são cartas escritas por António Lobo Antunes de 28 anos para a sua mulher durante o período da guerra colonial em Angola.

Mais do que cartas de amor é um registo documentário da guerra. Ou um registo biográfico do amor. 

Para quem não irá ler este livro, deixo aqui uma nota muito curiosa que as filhas do casal escrevem na introdução: o título desta obra era o título escolhido por António Lobo Antunes para o seu primeiro romance publicado que foi recusado pela editora e que todos nós conhecemos hoje por Memória de Elefante.

António Lobo Antunes dirige-se à sua mulher na maioria das cartas por "Minha joia querida", sublinha sempre as incomensuráveis saudades e o quanto gosta dela e da família. Logo na primeira carta, ainda na Madeira (07/01/1971) pede "coragem e paciência”. Dias depois, a bordo do Vera Cruz, recorda o primeiro dia em que viu a sua esposa: " Recordo-me do primeiro dia em que a vi, do seu perfil de Boticelli, recordo-me do ano seguinte na praia, do seu cabelo preso atrás e da sua risca ao meio, do seu aspecto de retrato de Ingres, recordo-me do seu cabelo cortado e do seu ar de midinette, e amo perdidamente todas as suas encarnações, sem poder escolher entre elas.  Amo a sua gravidez, os seus gestos, os seus sorrisos e as suas fúrias. Amo as suas zangas e a solenidade calada e digníssima dos seus amuos. Amo as suas recriminações e os seus beijos. E amo o seu filho, o filho de Vossa Excelência, meu amor."

Na vida diária do casal, sem a distância e o filtro romanceado de uma caneta e papel e a incerteza da chegada, tenho dúvidas se realmente amaria tudo aquilo que menciona mas todos nós percebemos o ponto e amamos também as suas palavras.

 

Destaco uma outra carta enviada a 28/08/1971 em que Lobo Antunes se dirige à esposa pelo nome próprio, Maria José, onde diz estar "ferido" com as palavras escritas por ela numa carta anterior. Ainda na mesma carta fala dos livros que chegaram do "Almada e do Cortázar".

"O Almada é mau mas tem de ler-se. Diferente, para pior do que eu calculava. Eu, se os tivesse escrito não tinha a lata de publicar qualquer um dos livros que já li. O Cortázar incluído. Apesar de tudo e sem grande imodéstia, sou melhor que estes gajos todos. "Invariavelmente, termina a carta com "eu gosto tudo de ti."

As cartas falam de episódios vividos em guerra, mas também evocam grandes nomes da literatura e, acima de tudo, falam do cansaço de um homem que escreve entre 71/73 em plena guerra colonial como eu gostaria que me escrevessem em 2022 em plena guerra que para aqui vai, sem "k" ou emojis a substituir todas as palavras.


Lara Nilde