Cardus Edição 128, dezembro 2023
Já li esta obra faz alguns anos. Recuperei agora por causa da disciplina de Psicologia, o estudo do cérebro e as suas áreas.
Reli o livro de um modo diferente, com um objetivo. No final, percebi que todo o livro parece poesia ou uma valsa lenta. Uma valsa lenta sobre um acidente vascular cerebral e as suas implicações.
“Nesta introdução à perda de identidade que um transtorno do cérebro tinha acabado de desencadear, o que me parece desde logo implacável e irreversível é a precisão com que em tão rápido espaço de tempo fui desapossado das minhas relações com o mundo e comigo próprio.”
O livro faz-me lembrar aquele primeiro momento da obra O PENSAMENTO MÁGICO (já aqui fiz umas considerações), em que tudo muda. Basta um instante e tudo muda.
“Sim, foi ali. Tanto quanto é possível localizar-se uma fracção mais secreta que a vida, foi naquele lugar e naquele instante que eu, frente a frente com a minha imagem no espelho mas já desligado dela, me transferi para um Outro sem nome e sem memória e por conseguinte incapaz da menor relação passado-presente, de imagem-objeto, de eu com outro alguém ou do real com a visão que o abstrato contém. Ele. “
José Cardoso Pires sofre um acidente vascular cerebral em 1995 que lhe afetou a memória, escrita e fala. Chamou-lhe de “morte branca”.
João Lobo Antunes, médico neurologista e seu amigo escreve o prefácio desta obra: “Devo dizer-lhe que é escassa a produção literária sobre a doença vascular cerebral. A razão é simples: é que ela seca a fonte de onde brota o pensamento ou perturba o rio por onde ele se escoa, e assim é difícil, senão impossível, explicar aos outros como se dissolve a memória, se suspende a fala, se embota a sensibilidade, se contém o gesto. E, muitas vezes, a agressão, como aquela que o assaltou, deixa cicatriz definitiva, que impede o retorno ao mundo dos realmente vivos. É por isso que o seu testemunho é singular, como é única a linguagem que usa para o transmitir.”
Este é um testemunho de alguém que deixou de ser quem era, um testemunho de muitas horas de recuperação e, claro, se estou a escrever estas palavras sobre esta obra é porque houve uma recuperação.
“Dois anos. Já dois anos sobre isto e só hoje é que dou por encerrada para sempre a minha viagem à desmemória.” Em 1997.