Cardus Edição 112, agosto 2022

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O Sétimo Juramento

Paulina Chiziane


Volto a Paulina Chiziane mas desta vez com o romance Sétimo Juramento. Trata-se do mesmo pano de fundo socio cultural que o livro anterior, Moçambique pós-independência onde se faz notar as regalias oferecidas a uma determinada elite e a exploração de outros. A narrativa traz à cena o papel da mulher na sociedade africana, a violência e os mitos e tradições que têm espírito de lei.

"Neste mundo ninguém é bom para ninguém. enganamo-nos uns aos outros, tiramos brancos substituídos por tiranos negros, é a moral da história. Tirania é filha legítima do poder. Justiça e igualdade é negócio de Deus e não preocupações dos homens."

David, diretor geral de uma empresa, entra em esquemas de corrupção e poder, pois, a sua queda social está iminente e procura auxílio na magia negra pela mão do seu amigo Lourenço, que o leva a sacrificar a sua própria família. Em troca aumenta o seu poder financeiro e a derrocada dos seus opositores. Até cair em desgraça bem como tudo o que David representa nesta sociedade.

"- Descobri o fascínio do oculto, mas afundei-me na imensidão das minhas descobertas. Na assembleia da noite, os espíritos prestaram-me reverências por terem descoberto em mim um deus perdido no tempo. Os videntes falaram-me de um destino bom, um destino feliz. Deram-me a certeza de existir um reino onde eu seria governador. Disseram que o ouro correria nas minhas mãos como a água do rio, mas não revelaram a fonte. A única mina que conheço é o cofre da minha empresa, compreendes, Lourenço?"

Podemos resumir a atuação das personagens como os praticantes das forças do mal e os praticantes das forças do bem. Mas assim o fio que os liga não seria notado e esse fio é de sangue. Vera, a mulher de David e os seus dois filhos combatem com o pai numa luta escura, durante a noite no interior denso de Moçambique, mas nunca olham na mesma direção.

"A vida é selvajaria, pirataria, hipocrisia. Tudo o que brilha ao sol tem segredos escondidos. A riqueza é filha da feitiçaria.

 Esta explicação tem a sua lógica, Vera reconhece. A história humana é feita de pilhagens, guerras, conquistas. Sangue humano construindo impérios. Miséria. Dor. Luto. Só atinge o alto quem pisa os sentimentos dos outros. A humanidade é uma selva onde só a lei do mais forte impera."

Mas será que se pode polarizar desta forma? Deixo para apreciação do leitor mais atento a sentença que o filho do casal, David e Vera, Clemente, faz dos atos praticados pelo seu pai.


Lara Nilde