Cardus Edição 110, junho 2022
Já tinha lido Irvin D. Yalom e não fiquei com vontade de continuar a ler obras suas.
No meio de outras leituras, pesquisas, conversas e reflexões foi-me sugerido este livro de que vos falo hoje: De Olhos Fixos No Sol - Ultrapassar o Terror da Morte.
Pode o sol ser olhado de frente? Pode a morte ser olhada de frente? Talvez sim. Metaforicamente, claro.
Quando começamos a perceber a morte? Quando nos afundamos num profundo autoconhecimento? A morte será sempre algo que assombra? Persegue? E se perseguir e assombrar isso significa que nós tentamos fugir da morte? E isto é possível?
Todos sabemos que não. Certo? O leitor sabe disso. Eu sei disso. Mas o que tememos ao certo? E aqueles que não temem? Serão os iluminados? Ou os que desistiram?
Este livro tenta buscar o medo da morte e colocá-lo à nossa frente. Do que temos medo afinal, quando dizemos ter medo da morte? Melhor ainda, do que não têm medo aqueles que dizem não ter medo?
Não vou a lado algum com estas questões. Podia dizer que mais vale dançar à chuva porque tudo isto é finito. Podia. Mas todos ligamos a morte à questão do sentido da nossa existência. Ela é um absurdo, para alguns mas para uma grande maioria é ela que atribui sentido à nossa existência. As religiões embrulham isso muito bem embrulhado ... e mandam para o paraíso os custos de envio e as contas alfandegárias.
Yalom liga o medo da morte à ansiedade geral e particular. Descreve casos reais que venceram esse medo.
“(...) a ansiedade da morte vai e vem ao longo do ciclo da nossa vida. As crianças desde muito cedo não conseguem ignorar os sinais de mortalidade que encontram à sua volta - folhas caducas, insetos e animais de estimação mortos, avós desaparecidos, pais em luto, hectares e hectares de cemitérios com campas a perder de vista. As crianças podem observar, questionar-se, seguindo o exemplo dos seus pais, simplesmente optar por permanecerem em silêncio. Se expressam a sua ansiedade abertamente, os pais ficam visivelmente incomodados.(...) por vezes os adultos tentam encontrar palavras reconfortantes, transferem todo o assunto para um futuro distante, acalmam a ansiedade das crianças com histórias que negam a morte.”
Talvez a morte como assombro, fantasma venha daqui.
Uma ideia em marca d’água presente em quase todos os casos aqui descritos é a de que muitas pessoas sofrem de ansiedade ou depressão e que isso está relacionado com o medo da morte.
Fui confrontada com esta ideia ao longo da leitura deste livro: pode a ideia da morte salvar-nos? Pode este “olhar de frente” ser um despertar?
“Muitos relatos de mudanças dramáticas e duradouras, catalisadas por um confronto com a morte, reforçam este ponto de vista. Enquanto trabalhava intensamente, ao longo de um período de dez anos, com doentes que enfrentavam a morte provocada pelo cancro, descobri que muitos deles, em vez de sucumbirem ao seu terrível desespero, agarravam a oportunidade, sofrendo uma transformação positiva e profunda.”
O livro não trata desta temática de forma leve como um nenúfar pousado em águas de uma fonte greco romana. Yalom é um psiquiatra e viaja pelo tempo de modo a recolher ideias de vários pensadores sobre a finitude.
Talvez tenha repetido vezes demais a palavra morte neste artigo. Chamemos-lhe finitude.
Talvez isto queira dizer algo sobre mim.
Yalom, estás aí?