Cardus Edição 84, 16-07-2020
Dado o meu texto anterior, algo improvável: outro texto sobre viagens e que em muitos pontos toca na...Indonésia. A começar pelo título: Jalan, Jalan, Uma Leitura Do Mundo.
“Jalan significa rua em indonésio. Também significa andar. Jalan, Jalan, a repetição da palavra significa passear. Passear é andar duas vezes.”
Este é um livro sobre viagens que se pode ler alternando os textos. O autor narra algumas histórias em vários locais do mundo, mas o mais fascinante é quando o autor fala de outros autores, sobre filosofia, sobre “as pessoas aborrecidas”, sobre “seres humanos a gasóleo” entre outros.
É um livro feito de várias histórias, textos ou apontamentos que, de um modo específico, se podem cruzar e assim termos uma leitura mais linear ou pode, simplesmente, ser lido avulso.
É um livro fisicamente pesado. Lembro-me que o levava para a praia e tinha que escolher: ou o livro ou o necessaire cheio de cremes. O livro, pois!
Vou passar à frente das inúmeras considerações sobre o que é e o que representa viajar. Atrevo-me a cruzar esta obra com a obra anterior e concluo que ambos têm uma visão muito parecida sobre o que representa viajar. Mas Afonso Cruz faz esta coisa extraordinária: viajar é estar a andar. É ir dar um passeio.
“Aristóteles filosofava a caminhar. E Epicuro, a passear no jardim.” E é a passear pelo mundo que Afonso cruz faz a sua leitura do mesmo.
É muito difícil destacar uma passagem, um texto, pois todo o livro dá vontade de ler em voz alta ou partilhar algo com alguém. De que servem os livros que lemos se não podemos partilhar as histórias? É muito idêntico às nossas ideias. De que serve ter uma ideia se não a conseguimos expressar?
Leiam o livro! Parece ser a forma mais ingénua e mais certa de o recomendar.
Acredito que os mais eruditos aconselhem ler esta obra de um modo pausado. Mas todos sabemos que Afonso Cruz é hipnotizante, certo? Fiz o esforço, não vale a pena forçar as pausas na leitura porque “a literatura amplia a vida de cada leitor. Estende-a além dos seus limites e faz ensaiar outros destinos.”
No entanto, é a melhor aneira de nunca deixarmos de ser nós próprios. Somos sempre nós próprios quando lemos e nunca o conseguiremos deixar de ser.
“Quando encontramos uma personagem com a qual nos identificamos, é como se nos víssemos ao espelho, e isso é uma forma de autoconhecimento.”
Face ao momento pandémico que atravessamos (atravessamos para onde?), ler sobre o mundo e aceitar que as ideias dos outros também são mundo, pode ser catártico e os livros falam sempre sobre realidades, sempre.
“O medo das contaminações, das pandemias, de tocar no outro, não se restringe a esta obsessiva necessidade de transformar o mundo num hospital asséptico em que a nossa pele será feita do mesmo material das luvas de cirurgião. E agora há que evitar aquele que era um dos gestos mais inocentes. (...) Funciona também no campo emocional: se virmos alguém a chorar, o melhor é não ter um gesto de simpatia(...)
É certo que o mal, a ignorância, algumas doenças, são contagiantes. Mas ainda há esperança: porque a bondade também.”
Afonso cruz podia ter escrito isto na Idade Média e seria a manta fria que nos cobre durante a noite dos dias de hoje.
“A literatura tem sido uma ferramenta para compreender o outro e para a pacificação social. E mesmo quando não nos identificamos de todo com personagens nem situações, a leitura ajuda-nos a evitar certos caminhos, indivíduos ou comportamentos. (...) Sei que ao longo dos séculos, os resultados poderiam ter sido mais espetaculares, mas não saberíamos como seria a estreia em que vivemos se nunca a tivéssemos ensaiado. Podíamos estar a viver um pesadelo bem pior. Por exemplo, o Trump, podia ter sido eleito.”
Ou isto.