Cardus Edição 109, maio 2022
Niketche é uma dança de amor e a obra é uma dança e a obra poderia ser uma simples história de amor ou da falta dele. Mas não é uma simples história e amor parece não faltar.
A autora considera-se uma "contadora de histórias e não uma romancista". Conta a história de Rami ou de muitas Ramis enquanto mulheres na sociedade moçambicana pós-guerra civil.
A história deste livro é uma denúncia à sociedade liderada pelo patriarcado africano e sexista que consideram a mulher como um ser que existe para obedecer ou manter.
Rami é a narradora/personagem que chora a sua condição de mulher num casamento poligâmico. Quando descobre as amantes do seu marido inicia essa dança orquestrada por si entre todas as amantes cercando cada vez mais o marido adultero.
"Todas entraram traiçoeiras como serpentes. Suaves como a música da alma. Elegantes como verdadeiras damas. Reivindicam o seu espaço com sorrisos. Fazem a guerra com perfume e flores. Elas são a chuva regando a terra para que dela brote uma vida nova. Estas mulheres juntas venceram os preconceitos e avançaram com firmeza derrubando a farsa. No rosto de Tony surpresa, vergonha, lágrimas e raiva. Despimos-lhe o manto de cordeiro diante dos verdugos e crivámos o corpo esfolado com rajadas de chumbo. Respirou fundo e ergueu-se em passos trôpegos, tentou fazer um discurso.
- Espero que compreendam ... somos africanos ... nossa cultura ... sabem ... elas ..."
À superfície muitas são as partes em que o leitor pode soltar uma gargalhada para logo depois bater na parede de cimento das práticas culturais e juízos de valor morais radicalmente diferentes dos nossos e violadores dos direitos humanos em nome dessa instituição falaciosa chamada tradição.