Cardus Edição 82, 16-06-2020
São raras as vezes em que o Pedro não carrega livros. São raras as vezes em que tenho tempo para ficar com ele a conversar sobre os livros e os autores e os temas que o Pedro gosta.
E sei que tu, Pedro, até saltarias um almoço só para ficar a conversar sobre um livro.
Pedro tem 15 anos e é um ávido curioso que se instrui a ele mesmo na árdua tarefa do conhecimento. Um tipo de conhecimento muito pouco usual para a sua idade. Por vezes tenho vontade de lhe dizer para ir sentir o vento na cara ou o sol a beijar a pele.
E aposto que até irias! Com uma sonata de Bach nos ouvidos e um livro de Kierkegaard na mão.
Ludwig Wittgenstein disse na sua obra Tractatus Logico-Philosophicus: “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. Acho que o Pedro não vai gostar de saber que a frase de tão ilustre filósofo não se aplica a ele.
É que, Pedro, o teu mundo vai para lá da tua linguagem porque tu não pensas com palavras e quando sonhas... sonhas com coisas sem nome. E tudo isto explica os teus olhos, a tua forma de perguntar, mas, acima de tudo, explica as epifanias que revelas quando compreendes um tema.
Educado, o Pedro nunca abandona a sala sem se despedir e é um dos primeiros a entrar.
Sabes, Pedro, nós professores não somos meros técnicos de ensino. Não deixamos de ser professores assim que a aula acaba. Obrigada, Pedro.
Quando lhe devolvi um teste com 20 valores, achei que seria já expectável para ele. Mas não foi. Quase me agradeceu. Não manteve o 20, é certo, e também já o vi perder-se nas palavras.
E já tive que te mandar calar, lembras-te?!
Mas manteve sempre a capacidade de perguntar ou responder. E de ir mais além. O Pedro é assim: vai mais além. Não sei desde quando é que ele se permitiu ser assim. Deve ser daquelas coisas que já nascem connosco. E ele percebeu que podia. Calculo que nem todos os dias sejam fáceis para o Pedro.
Mas aí, Pedro, olha bem para ti e pensa nesse mundo todo que tens aí dentro e que, apesar de ser bem maior do que a tua linguagem, merece estar ao mundo, ao sol deste mundo “desconcertado.”
Ainda consigo ver poemas nos olhos dos alunos.
Nos teus, Pedro vejo os versos da Sophia.
“Porque os outros se mascaram mas tu não
porque os outros usam a virtude
para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são uns túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mais tu não
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo
Porque os outros são hábeis
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não”
Perguntei ao Pedro se podia publicar um dos seus poemas. Enviou-me uns cinco poemas dos quais eu não conseguia decidir qual o mais bonito.
Mais tarde, enviou-me um email com o título “Algo novo”. O poema que vinha nesse email é o que partilho agora, aqui, convosco.
Correndo o risco de parecer uma romântica muito pouco rigorosa, assumo: li uma vez e depois li outra vez em voz alta.
E não me recordo de alguma vez ter lido assim um poema.
Pedro, nunca li assim um poema. Vai para o sol, Pedro (em dias mais difíceis senta-te numa sombra).
Moderna Cantiga ao segredo da Ideologia
Do homem mais bonito,
Da Mulher mais graciosa,
Eu sento-me numa sombra,
De uma folha amorosa.
Que não escondas a tua face,
Nem o teu ser, ó amorosa,
Eu sento-me numa sombra,
De uma folha graciosa.
É verdade que o humano é mau,
Mas não de penitências nos fazemos,
Eu sento-me numa sombra,
A Pensar no que seremos.
Os segredos dos altos revelarás,
Ao Povo que fomos, somos e que seremos,
Eu sento-me numa sombra,
A Pensar no que fazemos.
Um lutador nem sempre de corpo é,
forte e virtuoso, mas da mente,
Eu sento-me numa sombra,
E espero que tu estejas disto ciente.
Faz do amor ao povo, todos,
E disto estejas tu ciente,
Eu sento-me numa sombra,
Que nada disto te mente.
Faz da vossa vontade a tua,
E obedece à vontade do povo,
Eu sento-me numa sombra,
A pensar no lobo,
E prevejo que venceremos,
A partir desta vontade fogosa,
Eu sento-me numa sombra,
De uma folha amorosa.
Pedro Rocha
Lara Nilde