Cardus Edição 127, novembro 2023

LIVROS


Lara Nilde





A Breve Vida das Flores


Valérie Perrin

Há quem transforme um adverbio de tempo em verbo. O sempre para Violette Toussaint era conjugado na primeira pessoa: sempre-me.

Violette é uma guarda de cemitério numa vila de Borgonha e lida com a eternidade, com a vida com o para sempre.

O cemitério, para Violette, permite-lhe perceber que estar vivo é o paraíso mas que saber do outro lado é fundamental.

A obra tem este balanço de contrários simbólicos: o cemitério e a vida, a bata cinzenta de Violette mas a roupa que se esconde por baixo cheia de cor.

“Saboreio a vida, bebo-a em pequenos goles como chá de jasmim com mel. E quando chega o final da tarde e os portões do meu cemitério se fecham e a chave se pendura à porta da minha casa de banho, fico no paraíso.”

A obra é a história dessa mulher, como foi abandonada pela mãe, o marido que a deixou e a sua filha. Mas é também a história daqueles que choram no cemitério, que visitam o cemitério, as histórias das histórias dos funerais ... até chegar ao início de uma história nova para si.

Decidida em perceber as razões que tanto sofrimento lhe trouxeram, ancora-se numa história de amor clandestino de uma morta.

“Eu vivia numa espécie de como alcoólico permanente. Como se o meu corpo, para se proteger da dor, tivesse adotado o estado de embriaguez sem que eu bebesse uma gota sequer de álcool. Bem, nem sempre. Às vezes bebia como um poço sem fundo. Vivia dentro de algodão, os meus gestos eram sincopados, em câmara lenta. Como o Tintim, quando estava na parede do quarto da Léonine: andava sobre a lua.”

Não é um livro triste. Acontecem coisas boas e simples: uma amizade e o amor que nos ensinam a reconstruir ou a avançar. Mesmo assim, para Violette ... há sempre falhas e sítios rasgados.

Termino com a recordação de uma parte do livro onde a personagem grita na janela:  “Façam as pazes com quem amam!!”


Lara Nilde