Cardus Edição 95, março 2021
Uma obra sobre o esquecimento. De um amor e de um crime.
Todos nós somos epopeias vivas, porque “todas as viagens são viagens à Índia”.
O título desta obra é, como lhe chama Eduardo Lourenço no prefácio, “uma provocação”. Uma obra decalcada estruturalmente na obra Os Lusíadas.
O herói desta história não representará qualquer um de nós devido à sua peculiaridade, mas não deixa de ser um herói da sua própria viagem com feitos memoráveis.
O herói desta história chama-se Bloom.
“Falaremos de Bloom e da sua viagem à Índia. Um homem que partiu de Lisboa.”
Um homem vulgar que parte para encontrar o esquecimento. Ou para ir esquecendo. Não parte feliz, portanto, mas considerações sobre o que é a felicidade é coisa que não falta.
Não se chega a uma Índia de um dia para o outro. Pelo menos, numa epopeia. Trata-se de um caminho: Londres, Paris, Alemanha ...
E nesse caminho há acontecimentos que têm pessoas lá dentro. Pessoas que com a função do Velho do Restelo ou Adamastor.
“Esperamos, pois, Bloom que cresças e que crescendo vás direto à realidade e não pares. Porque não basta encostares-te aos acontecimentos, o que pensamos para ti é bem mais profundo, não basta conheceres sete teorias, terás que subir a sete montanhas.
E atravessar ainda os continentes como se a terra fosse uma extensão temporal capaz de medir os seus dias.”
Bloom não tem super poderes e é feito de sangue, seco desde que decidiu partir. Tem uma família e teve um grande amor. Nada diferente de si, certo, caro leitor?
Mas o leitor não vai encetar uma viagem à Índia. E eu sei porquê. Porque não tem o passado de Bloom. Ou seja: nada para esquecer.
Será que Bloom quando lá chegar encontra o que procura?
“É evidente que me preparei com cuidado para avançar para o outro lado do mundo e mais longe que isso: para o outro lado de mim próprio.”