Cardus Edição 126, outubro 2023

LIVROS


Lara Nilde





a máquina de fazer espanhóis


Valter Hugo Mãe

Aquela frase “a vida dá muitas voltas” aplica-se, portanto.

A vida deu aqui uma volta e só quando parou de rodar é que voltaram os livros e a vontade de ler. Mais devagarinho, admito.

Volto ao Valter Hugo Mãe. Recomeço com um familiar das leituras. Mais: na verdade, recomeço um livro onde já “estive”. A Máquina de fazer Espanhóis.

Lá está! (outra coisa que se diz) as voltas da vida.

Estava a reler e a tentar perceber por que razão o terei de certo modo “abandonado”. O Freud que há em mim explica: talvez projetes personagens deste livro em pessoas tuas. Ou perdas tuas. E a tua relação com o assistir ao avançar da idade nos outros não é a melhor.

Ok, Freud.

O livro começa com uma grande perda para alguém. E começa a doer logo no início. Aquele soco no interior do peito que fica com um hematoma invisível. Lembrei-me daquele poema da Elizabeth Bishop, THE ART OF LOSING.

"Com a morte, também o amor deveria acabar. Acto contínuo, o nosso coração deveria esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. Pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne, todavia, mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade e não é compreensível que assim aconteça. Com a morte tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano, esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder.”

O livro trata da vida num lar e de uma certa maneira de ser português. Os Silvas, os Pereiras, os emigrantes e os benfiquistas.

Tópicos esses que, embrulhados no dia a dia do lar, mesmo parecendo tristes, se revestem com uma certa candura e com tempo. A narração do tempo entendido pelos personagens é muito bonita, o tempo que demora a passar e o que se segue àquele tempo no lar.


Lara Nilde