Cardus Edição 104, dezembro 2021
Eu não sabia que este livro era uma aventura. Parece que sim.
O livro apresenta-nos uma remota aldeia polaca e a personagem principal, a professora reformada que faz traduções de William Blake, Janina Duszeijko. Dito assim, na minha cabeça veio a imagem de uma casa muito aconchegante e quente numa qualquer aldeia polaca e a sua proprietária calma e velha com mantinhas de lã e frascos de bolachas. Mas não é nada disso.
A casa parece fria que dói ao pensar e a sua proprietária é uma excêntrica. Com um vizinho chamado Papão.
Também o título me induziu em erro. Mas isso é problema meu que me pus a induzir e já devia saber que as induções, apesar de muito necessárias para o nosso dia a dia, são generalizações e que devemos sempre ser mais verrumantes quando formulamos uma opinião.
O título sugeriu-me algo como um aforismo que norteasse toda a obra e nos servisse de lição de vida. Agora que coloquei assim escrito... parece que não estive tão longe.
O lugar onde Janina vive é abandonado por muitos durante o inverno por causa do Inverno rigoroso e não tem um nome oficial.
"Aqui o vento não para de soprar; as massas de ar circulam pelas montanhas de oeste para leste, desde a república Checa até nós. No Inverno, o vento torna-se o e sibilante; uiva nas chaminés. No inverno, dispersa-se por entre as folhas e sussurra de tal modo, que aqui nunca reina o silêncio."
Esta descrição acompanha o leitor durante toda a obra, cria a atmosfera da obra e dos acontecimentos. Uma povoação rodeada de neve e animais selvagens. E é um aviso. Achei difícil entrar na pele da Janina, é densa e rude e no que tem de mais sensível reflete de um modo quase alucinatório. A personagem foge àquilo que estava à espera. Mas, lá está... o problema foi meu que criei uma expectativa.
Janina é uma idosa, doente mas ágil que acredita no mundo dos animais e da natureza. E da astrologia.
O livro é uma inquietação policial e existencial quando Janina tece considerações sobre o mundo em que vivemos. A ação começa com a morte de um vizinho engasgado com o osso de uma corça. Outras mortes ocorrem e o romance desenrola-se em torno das possíveis causas. Serão os animais os assassinos? Será que o fazem por vingança?
Janina é uma voz da luta e muito mal entendida. Luta por um mundo igual entre os Homens e os Animais e de denuncia dos abusos dos Homens.
“– Tive, em tempos, duas cadelas que prestavam muita atenção para que tudo fosse repartido igualmente - a comida, as festas, os privilégios. Os animais têm um sentido de justiça muito desenvolvido. Lembro-me do olhar delas, quando fazia algo de errado, quando as repreendida injustamente ou quando não cumpria o prometido. Olhavam para mim com um pesar tão triste, como se não pudessem entender, como se eu tivesse violado uma lei sagrada. Aprendi com elas lições de justiça básica e natural - calei-me por um momento e depois acrescentei: - Nós temos uma visão do mundo e os Animais têm um sentido do mundo, sabias?”
Disse também que este livro é um aviso, um aviso dirigido aos nossos atos que, julgamos, podem passar impunes. Mas quem gosta de astrologia sabe que as coisas não são bem assim e que tudo estará, de algum modo, determinado.
Há uma passagem paradigmática:
“Com que então será mesmo verdade que vivemos à superfície de um globo, expostos aos olhares dos planetas, abandonados num grande vazio, onde, após a Queda, a luz se fragmentou em pequenos pedaços e se dispersou? É verdade. Deviam-nos lembrar disto todos os dias, porque nos esquecemos. Parece-nos que somos livres e que Deus nos perdoa. Quanto a mim, penso de maneira diferente. Cada um dos nossos atos, convertido em leve tremor de fotões, põe-se enfim em marcha para o Cosmos como um filme, e será visto pelos planetas até ao fim do mundo.”