Cardus Edição 103, novembro 2021
Nem todas as jovens de 20 e poucos anos poderiam ser a Lola mas a Lola poderia ser qualquer uma de nós.
Não sei se Lola anda “à procura do seu lugar no mundo”, talvez seja o próprio mundo de Lola que é como é na fronteira de aceitação onde o mundo passa a ser “o mundo de Lola”.
É um livro que aborda temas importantes, neste momento, para muitos jovens ou jovens adultos: a ansiedade, o “não fazer parte”, a relação com os pais, as relações de amor e de amizade... numa só palavra, talvez a procura de alguma coisa ou a procura de um mundo onde possa o mundo de Lola repousar.
“Durante anos tinha observado o amor em caminhos paralelos ao meu, por isso, quando me cruzava com ele, ficava desorientada. Por um lado, como se estivesse faminta dele, sentia um impulso para deslizar nessa rede, de braços abertos. Por outro, via-me forçada a recolher-me como um feto numa bolha, concebida por mim e apenas para mim. Dei-lhe um beijo rápido para me despedir. A minha toca aguardava-me. Essa ideia de estar prestes a entrar em toca sagrada de novo tranquilizava-me.”
O livro passa-se no Porto e vai até Madrid. Nessa trajetória dá-se uma espécie de transformação da personagem. Nunca sei se isto é verdade. Se a personagem se transforma, talvez a Lola se dê ao mundo e nisto de se dar ao mundo, de conhecer outros e com outros chegar mais mundo, nesta entrega acrescentamos algo mais a nós próprios e não ocorra propriamente a transformação. Ou estarei apenas a fazer malabarismos com palavras?
O que mais gostei neste livro foi um determinado aparte evocado algumas vezes que tem a ver com as máscaras que usamos e as referencias à escritora Rosa Montero.
A relação de Lola com a sua mãe serve de paradigma das coisas que ficam, sempre por dizer e das ausências dentro de nós. Também esta relação é trabalhada nesta obra com recurso a belíssimas imagens.
“Não éramos o tipo de pessoas que cediam o seu tempo a conversas inócuas apenas para continuar com um telemóvel ao ouvido e escutar a voz emitida do outro lado. Não éramos, de facto. Mas, mesmo que essa fosse a nossa natureza, não saberíamos como fazê-lo juntas. Por isso, pouco depois da minha recusa, despedimo-nos. Sempre que desligava as chamadas, tinha a sensação de que ficara tudo por dizer. Desta vez quando pousara o telemóvel em cima do envelope das fotografias, sentira que comunicáramos mais do que o costume. Não saberia bem dizer porquê. Esta impressão não se devia às palavras ou ao convite de Dulce. Tinha sido o seu tom. Um tom que desvelada somente uma coisa: saudades.”