Cardus Edição 74, 15-02-2020
Não sei se a autora concordaria comigo se eu dissesse que este é um livro sobre a morte do seu marido. Por simpatia, talvez concordasse. E nesse caso, diria que é muito mais do que isso. Talvez seja redutor considerar que é um livro sobre a morte do marido.
É um livro sobre a arte, a literatura. Sobre a força salvífica da literatura.
Rosa Montero, escritora e jornalista espanhola, escreve sobre a morte embrulhada num diário de uma polaca a quem foram atribuídos dois prémios Nobel, o da Física em 1903 e o da Química em 1911: Marie Curie. O diário de Marie Curie é posterior à morte do seu próprio marido que faleceu aos 47 anos, atropelado por um carro puxado a cavalos. Mas Rosa Montero não se ficou apenas pelos diários.
“Comprei meia dúzia de biografias de Madame Curie, de quem antes já sabia coisas, mas não tantas, e alguma coisa informe começou a crescer na minha cabeça. Uma vontade de contar a história dela à minha maneira. Uma vontade de usar a vida dela como medida para entender a minha; e não estou a falar de medidas feministas mas de tentar averiguar qual o lugar da mulher nesta sociedade em que os lugares tradicionais se aboliram. Uma vontade de vadiar pelas esquinas do mundo, do meu mundo, e de refletir sobre uma série de Palavras que me despertam ecos, Palavras que ultimamente me andam às voltas na cabeça como cães perdidos. Uma vontade de escrever como quem respira. Com naturalidade, com Leveza.”
A minha admiração por esta escritora começou com uma das obras mais conhecidas, “A Louca da Casa” que , tal como “A ridícula ideia de não voltar a ver-te” colocam o leitor ao lado e dentro de casa de vários nomes da literatura e falar sobre a vida dos escritores é falar sobre o que vai dentro de nós. Pelo menos, com Montero.
““A arte é uma ferida feita de luz”, dizia Georges Braque. Precisamos dessa luz: não só quem escreve ou pinta ou compõe música, mas também os que veem quadros e ouvem um concerto. Precisamos todos dessa beleza para que a vida nos seja suportável. Fernando Pessoa expressou-o muito bem: “A literatura como a arte em geral, é a demonstração de que a vida não basta.” Não basta, não. Por isso redijo este livro. Por isso estás a lê-lo.”
Apoiada no parapeito da janela que dá para o mundo de Marie Curie, avista o seu mundo e consegue escrever sobre a dor.
“A verdadeira dor é indizível. Se conseguirmos falar sobre o que nos angustia estamos com sorte: significa que não é assim tão importante. Porque quando a dor cai sobre nós sem paliativos, a primeira coisa que nos arranca é a Palavra. É provável que reconheças o que digo, talvez o tenhas sentido, porque o sofrimento (tal como a alegria) é comum em todas as vidas. Falo daquela dor que é tão grande que nem sequer parece que nos nasce de dentro, que é como se tivéssemos sido sepultados por uma avalancha. E assim ficamos, tão enterrados sob essas toneladas perigosas de pena que nem conseguimos falar. Temos a certeza de que ninguém nos vai ouvir.”
Apesar de temas como a morte e a dor, este livro está longe de ser sombrio. É também um livro sobre as Mulheres. As Mulheres de ontem e de hoje. Uma dança entre o tempo de Curie e o tempo de Montero. Das injustiças sociais, das lutas pela aceitação e das tarefas comummente aceites como masculinas.
“Marie Curie não foi só a primeira mulher a receber um Nobel e a única a receber dois; foi também a primeira a licenciar-se em Ciências na Sorbonne, a primeira a doutorar-se em Ciências em França, a primeira a ter uma cátedra...foi a primeira em tantas frentes que se torna impossível numerá-las. Uma pioneira absoluta. Um ser diferente. Também foi a primeira a ser enterrada pelos seus próprios méritos no Panteão de Homens Ilustres de Paris.”
E, claro, é um livro sobre homens. Daquilo que a autora chama, a Fraqueza dos Homens.
“Quantas vezes nós, mulheres, mentimos aos homens; em quantas ocasiões fingimos saber menos do que sabemos, para que pareça que eles sabem mais; ou lhes dizemos que precisamos deles para alguma coisa, mesmo que não seja verdade, só para que se sintam bem; ou os adulamos à descarada para celebrar qualquer pequena vitória, e até achamos enternecedor constatar que, por mais exagerada que seja a lisonja, nunca se dão conta de que lhes estamos a dar graxa, porque na verdade precisam de ouvir elogios, como aqueles adolescentes que precisam de apoio extra para poderem acreditar em si mesmos.“
É, portanto, um livro recheado de temas, de autores, de vidas dos autores e de Liberdade.
“Só sendo absolutamente livre se pode dançar bem, se pode fazer bem amor e se pode escrever bem. Atividades, todas elas importantíssimas.”
Lara Nilde