Cardus Edição 80, 16-05-2020

Livros

Página de Lara Nilde

O luto de Elias Gro

JOÃO TORDO

Banquo é um personagem da tragédia Macbeth, de William Shakespeare. Macbeth, motivado pela sua esposa, manda matar Banquo e o seu filho pois tinha escutado uma profecia que determinava que o trono seria de um descendente de Banquo. Enquanto os assassinos matam Banquo, o seu filho escapa.  Macbeth tem uma visão do fantasma de Banquo num banquete, sentado no seu lugar.

Para fugir do passado tentamos fugir de nós próprios.  Mas é aqui que reside uma inconsistência lógica: com o corpo, levamos sempre a memória. E memória é passado.

João Tordo conta a história de um homem “feito de vidro” que já não quer nada. E, por essa razão decide ir viver para uma ilha onde vivem menos de cem pessoas e só acessível por ferry. Nessa ilha existe um farol distante da única povoação, cerca de três quilómetros.  Foi aí que a personagem principal decidiu ficar. Aliás, essa era a grande vantagem: o farol isolado da humanidade.

Em todas as definições da palavra farol existe a alusão a luz, aquele que orienta. Um guia.

Outra vez: um homem que carrega um manto de veludo escuro e pesado vai viver para um farol numa ilha quase deserta.

A única metáfora utilizada na frase acima é o manto veludo e pesado. E isso é a pedra de toque desta história.

“Agora eu morava ali, aquele túnel circular plantado no limiar de uma escarpa; seria ali, enregelado e mergulhado na penumbra, a quilómetros da alma mais próxima, que lidaria com o passado.” 

Ali, ele vai encontrar os “diabos à solta num quarto escuro e abafado” que lhe mostram que transportamos connosco um inferno.

“Eu não coabitava com fantasmas mas com os antepassados dos fantasmas; se o passado era eu, o próprio fantasma em pessoa. Havia alguém no meu lugar, alguém que eu ocupara e a quem entregara a procuração da minha vida.” 

Esse alguém que tomou o lugar do narrador e que habita na sua memória é a razão das páginas deste livro. É o “fantasma de Banquo sentado à mesa real.”

De todas as pessoas que se cruzam no caminho do narrador, destaco Cecília, uma menina de onze anos que lhe mostra a “medida certa do amor” e que ali, exatamente ali, encontrou quem o esperava.

Lara Nilde