Cardus Edição 116, dezembro 2022
Trata-se de uma longa conversa entre Miguel Gonçalves Mendes, o entrevistador, José Saramago e Pilar Del Río. Não é uma conversa a três: ora temos Saramago ora temos Pilar isoladamente o que torna a leitura mais interessante para o leitor psicanalista de bancada.
O prefácio é de Valter Hugo Mãe, servido como a mais maravilhosa entrada para o prato principal. Para Valter Hugo Mãe, é Pilar quem adquire uma maior expressão nesta obra.
“A par de tantas declarações e explicitações de Saramago, é o retrato de Pilar que adquire uma força impressionante, força que creio já não surpreender ninguém, e que creio estar na base da grande comoção que tem criado o documentário José e Pilar, e que agora, com este livro, se adensa. Pilar del Río, é, sem dúvida, uma das mais imperdíveis mulheres dos nossos dias.”
Concordo, sem ser fã. Porque não tenho coragem de reclamar uma certa liberdade em vários domínios, coisa que ela tem.
Não vou destacar as declarações sobre a relação entre os dois, o dia em que se conheceram, como se conheceram porque os seguidores de Saramago já sabem, nem destaco a “famosa história do Diário de Notícias” porque também já foi contada.
Saliento uma certa forma desapaixonada de estar na vida, de aceitar as coisas como elas são, sem grandes rodeios ou pretensiosismos bacocos.
“(…) Que papel é que esta ilha, este espaço, assumiu para si?
Nenhum, nada.
A ilha?... quem tenha de escrever, escreve na ponta de um alfinete se for necessário. “Ah, você e a ilha ... inspiração… ". Não acredito em nada que tenha a ver com inspirações. Não há, não há inspiração, há trabalho. De onde é que vêm as inspirações? É que mesmo que venham de algum lugar, e evidentemente teriam de vir de algum lugar ... esse lugar é só um - a nossa cabeça.”
E o que é que fica de nós quando morrermos?
Não fica nada. Quer dizer, quando eu morrer vai ficar esta entrevista, vão ficar os meus livros, vão ficar durante um tempo as hemerotecas, os artigos e tudo isso, vão ficar os livros que se escrevam sobre a minha obra. Mas de mim próprio não vai ficar nada. Na recordação das pessoas que me são próximas evidentemente que irei ficar durante um tempo e talvez mesmo durante muito tempo, mas por fim tudo acaba.”
Jugo que este “tudo acaba” não se refere ao encontro marcado no “outro sítio” na sua dedicatória a Pilar quando sentiu a morte próxima de si.