Cardus Edição 118, fevereiro 2023
Quando se muda de vida nunca se deve questionar se terá sido a decisão correta. Não existe uma resposta e é a melhor maneira de não encarar o veredicto sobre tal decisão, mas Madalena estava sempre aí, presente nesse lugar sem vida que é o limbo do certo e do errado. Nem ela poderia saber, nem Deus nem ninguém.
- Uma resposta, Senhor, uma resposta! - era pedante com Deus e pouco responsável por si mesma.
Encantamo-nos com a ideia de uma mudança, mas são só palavras. A mudança implica coisas, talentos e tempo e não um milagre. Implica pagar a uma carrinha de transporte de vidas e esperar que os condutores não parem algures para beber uma cerveja. Já me aconteceu.
Já vi de tudo. Quando me pedem para embrulhar com a película transparente os porta retratos, eu percebo. A mudança é uma mudança de pessoas ao ponto de já nem conseguirem transportar elas próprias os porta retratos. Pior são as casas onde não existem porta retratos e transporto apenas móveis. Significa que as pequenas coisas, as mais delicadas foram transportadas pelos donos da casa com receio de deixar em mãos alheias. Eu sou alheia e interessada, esse é um grande problema para quem tem que fazer o que tem a fazer de um modo isento.
Uma casa diz muitas coisas sobre quem lá vive, claro, mas nada dizia sobre a Madalena. Os pequenos sabonetes nas gavetas. Talvez isso.
Uma vez, chegada a casa encontrou um rato morto na cozinha. Como poderia haver ratos ali naquele quinto piso de um prédio muito recente. Por onde terão entrado? Pelos canos? Terão sido paridos pelo mofo? Criados pela tristeza? As coisas estagnadas não se transformam? As águas paradas largam um cheiro hediondo e criam ratos. Eis a razão do rato na sua cozinha.
Tirar o rato do chão foi fácil. Estava morto, nada a fazer senão agarrá-lo pelo rabo com um guardanapo e colocá-lo no lixo. Fora de casa.
- Acho que acabei de iniciar a apanha do rato morto. De onde veio este deve existir mais. Tenho que estar atenta ao cheiro a rato morto.
Não disse ao marido o sucedido. – Para quê? Também não iria acreditar.
O que mais me espantou foram os pijamas, a quantidade de pijamas que havia dentro de um caixote. Tem que haver tempo para tantos pijamas pois não se muda de pijama todas as noites. Teria trabalhado Madalena em algo relacionado com a confecção de pijamas?
Nem sempre tive esta profissão. Já vivi em outros mundos e um mundo particularmente meu era o das pessoas. Pensei o que levaria uma pessoa ter tantos pijamas. Um símbolo de conforto, de relaxamento. Pronto. Reduziremos a coisa ao óbvio e ao simples. Madalena tinha muitos pijamas de todos os feitios. Se eu pudesse, ter lhe ia dito que só temos muitos pijamas quando não temos planos para sair de casa até ao dia seguinte. Todos os dias.