Cardus Edição 75, 01-03-2020

Livros

Página de Lara Nilde

A herança de Eszter

Sándor Márai

Não são assim tantas as características iminentemente humanas. Mas destaco duas: a racionalidade e o sabermos esperar. O “estar à espera de…”, estamos sempre à espera de alguma coisa. Esperamos que algo melhore, esperamos uns pelos outros, esperamos um telefonema, esperamos pelo sol, esperamos que o tempo passe, esperamos que o futuro seja em consonância com o passado de modo a não vivermos num caos e sem saber o que realmente esperar no dia seguinte. Mais nenhum ser vivo “espera” ou cria expectativas de algo. Pelo menos de uma forma consciente, intencional e com uma finalidade.

Eszter, a personagem central deste livro, esperou muito tempo por alguém. Sabia que esse dia iria chegar. Este é um livro simples, mas com uma atmosfera densa e lenta. Podemos “ouvir” Eszter enquanto espera, podemos ouvi-la quando recebe o telegrama a anunciar a visita de Lajos. Esperar é também um ato de paciência. Muitos são os que desistem ou se entregam ao esquecimento, exceto quando a espera é destino.

“Não sei o que Deus ainda me reserva. Mas, antes de morrer, quero escrever a história do dia em que Lajos veio ver-me pela última vez e me roubou. Há três anos que venho adiando estes apontamentos. Agora, sinto como se uma voz, contra a qual não posso defender-me, me exortasse a escrever a história desse dia- e tudo, tudo o que sei acerca de Lajos. Uma voz assim é inequívoca. Por isso, obedeço, em nome de Deus. Já não sou jovem nem tenho saúde, e, em breve, terei de morrer. Receio a morte?.... No domingo em que Lajos veio ver-me pela última vez curei do medo de morrer.”

Lajos é a razão da sua espera durante 20 anos e é também a razão da sua parca existência, monótona e inóspita. Um sedutor, malabarista das palavras e um traidor. Roubou tudo o que lhe foi possível roubar a Eszter e à sua família, exceto a casa onde vive com Nuno, uma parente idosa. Casa essa que Lajos, tal como uma aranha vai tecendo a sua teia, diz-lhe pertencer por direito.

“Quem estiver condenado em construir em ti sorte pior terá, porque, um dia, terá de perceber que tudo construiu no ar, no nada. Os outros homens mentem porque é da sua natureza, ou porque assim exigem os seus interesses, ou por uma inspiração do momento. Mas tu mentes como tomba a chuva; sabes mentir com lágrimas, sabes mentir por atos. Isso deve ser muito difícil. Às vezes, quase acredito que és, efetivamente, um homem de génio…Um génio da mentira”

Eszter é uma mulher sem escolhas, presa nas cordas do destino ditado pelos seus sentimentos contraditórios.

Lara Nilde