Cardus Edição 107, março 2022
Ouvi Valter Hugo Mãe explicar as razões que o fizeram escrever este livro. Na verdade, a única razão.
Diz ele que este livro nasceu numa noite em que foi tomado por uma angústia que torce o coração: chegou aos quarenta sem filhos e assim ficará. Induzo que o que ele sentiu terá sido o mais próximo de ouvir um barulho de uma chave mestra que fecha uma porta e depois lançada ao mar.
E assim começa o livro: "Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo."
A obra toca nos pontos basilares da existência: o amor, família e paternidade. Estas dinâmicas vão se enredando umas nas outras até à construção de uma grande família destituída de laços biológicos, mas fecunda de um óvulo de sentimentos.
É a história de Crisóstomo, de Isaura, de Camilo, de Matilde, de Antonino...
Mas uma história não é feita apenas com nomes, é feita pelas escolhas das personagens e, parecendo que nem tanto, as personagens desta história tomam decisões e correm perigos. Os perigos podem vir de muitos lados. O maior que detetei: o preconceito.
Se disser que é uma obra sobre o amor, não estarei a dizer tudo. Se disser que o amor é pacificador não estarei a dizer que nem todos sentem amor ao que é diferente. O amor não pacifica se tivermos o olhar acusador do outro em nós, o amor não pacifica se não aceitarmos os outros pelo que têm de diferente. A personagem Antonino é só dor num primeiro momento, depois, e sem acreditar no poder pacificador do amor, ama-se a ele próprio e consegue assim a redenção do mundo, obtendo, assim, toda a esperança do mundo.
"O Antonino achava que era maricas porque lhe faltara o pai ou porque talvez não fora à escola e não se habituara às raparigas como os rapazes comuns. Achava que em algum momento alguma coisa falhara na sua educação sentimental."
Isaura é invisível, magra, concava, seca e pedante de amor. Tal como Antonino, amou-se a ela mesma e sentiu a felicidade.
"Pensou nisso a Isaura. Não adiante sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer aspirar ao impossível. A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser. "
E ao aceitar vai para perto do mar conhecer o que é possível acontecer se continuar a acreditar. Acho que ela não acreditava, mas Crisóstomo nunca deixou de acreditar e levou Isaura para a sua vida onde muitas coisas boas ainda seriam possíveis e as pessoas não vivem apenas como se fossem metades de tudo.