Cardus Edição 115, novembro 2022
No mês em que José Saramago, se fosse vivo, completaria 100 anos, vamos procurar em páginas dos seus escritos a sua árvore genealógica com os nomes que estão disponíveis.
Com a ajuda de textos selecionados que pode ler, um a um, na janela ao lado, complete a árvore genealógica de Saramago, arrastando para a célula correspondente o nome dos seus familiares que se encontram agrupados abaixo.
Nota: o nome só é descarregado para a célula se a correspondência estiver correta.
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Texto 1
O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro.
(Discurso lido na Academia Sueca, aquando da entrega do Prémio Nobel e publicada em O Último Caderno de Lanzarote, Porto Editora, 1ª edição, p. 203).
Texto 2
Ainda não falei dos meus avós paternos. Como costumava dizer o poeta Murilo Mendes do inferno, existir, existiam, mas não funcionavam. Ele chamava-se João de Sousa, ela, Carolina da Conceição, e para carinhosos faltava-lhes tudo, embora, verdade seja, tenham sido pouquíssimas as ocasiões que tivemos, eles e eu, para averiguar até que ponto poderiam chegar as nossas mútuas disposições quanto a permutas de afeto. Via-os raras vezes, e a secura que cria encontrar em um e em outro intimidava-me.
As Pequenas Memórias, Porto Editora, 1ª edição, p. 53).
Texto 3
Regresso à família da aldeia. Dizia-se que o avô Jerónimo tinha sido posto na roda da Misericórdia de Santarém, e sobre isto não há que duvidar, porquanto a própria avó Josefa me falou algumas vezes do caso, sem outros pormenores, que ela talvez não conhecesse ou preferisse calar. Sobre as circunstâncias do nascimento e vida da irmã dele, a malquista tia-avó Beatriz, ainda fiquei a saber menos. Mencioná-la era como falar de corda em casa de enforcado. A questão mais intrigante de todas aparece na certidão de nascimento de minha mãe, onde se declara que era neta de avô incógnito e de Beatriz Maria. Quem teria sido esta mulher? Não tenho a menor ideia, mas a coincidência do nome, se tal fosse necessário, seria mais um elemento a dizer-me que a mãe de Jerónimo tinha sido também a mãe da Beatriz que vivia na casa ao lado. Uma certidão de nascimento da tia-avó Beatriz, se a tivesse, aclararia de vez o caso. Mas há ainda um outro aspeto estranho em toda esta história. Porquê aparece como incógnito alguém que vivia na aldeia e ali havia dado razões mais que de sobra para ser conhecido? Está claro que a mãe do meu avô Jerónimo não quis ou não podia ficar com o filho, e por isso o mandou pôr na roda dos expostos, mas continuarei sem saber o que se passou com a filha Beatriz. Também teria sido exposta? Pelos vistos, aquele famoso bisavô berbere (mouro é que devia ser), cuja fama de arrasa-corações e arranca-pinheiros, graças às confidências da avó Josefa, ainda chegou aos meus ouvidos, terá engravidado duas vezes a bisavó Beatriz Maria, a não ser que, e isso simplificaria tudo, não obstante as evidentes diferenças entre ambos, alto, ele, baixinha, ela, os dois irmãos fossem gémeos. O que nunca enganou ninguém foi a parecença, o ar de família (tez morena, feições vincadas, olhos pequenos e estreitos) que reunia, numa espécie de tribo reconhecível à légua, o avô Jerónimo e a irmã, a minha mãe e todos os seus irmãos: Maria Elvira, Carlos, Manuel, Maria da Luz. A cepa masculina que os deu não era daquelas paragens ribatejanas. Ao contrário do que alguém possa ter pensado, o bisavô mouro, de quem parece não ter ficado o menor sinal escrito da sua passagem pela Azinhaga, não foi uma romântica invenção minha para enfeitar a modestíssima árvore genealógica da família, mas uma confirmada realidade genética. Vivia fora da aldeia, numa barraca entre salgueiros, e tinha dois cães enormes que assustavam os visitantes olhando-os em silêncio, sem ladrar, e não deixavam de olhar até que eles se retirassem. Um desses visitantes, disse-me a avó Josefa, foi morto e enterrado ali mesmo. Tinha ido pedir explicações ao mouro por lhe ter seduzido (palavra fina) a mulher e recebeu a descarga da caçadeira em cheio no peito. Não consta que o assassino tivesse sido julgado pelo seu crime. Quem foi este homem?
(As Pequenas Memórias, Porto Editora, 1ª edição pp. 57- 59)
Texto 4
A mãe e os filhos chegaram a Lisboa na Primavera de 1924. Nesse mesmo ano, em Dezembro, morreu o Francisco. Tinha quatro anos quando a broncopneumonia o levou. Foi enterrado na véspera de Natal. Em rigor, em rigor, penso que as chamadas falsas memórias não existem, que a diferença entre elas e as que consideramos certas e seguras se limita a uma simples questão de confiança, a confiança que em cada situação tivermos sobre essa incorrigível vaguidade a que chamamos certeza. É falsa a única memória que guardo do Francisco? Talvez o seja, mas a verdade é que já levo oitenta e três anos tendo-a por autêntica ... Estamos numa cave da Rua E, ao Alto do Pina, há uma cómoda por baixo de uma abertura horizontal na parede, comprida e estreita, mais fresta que janela, rente ao pavimento da rua (vejo pernas de pessoas a passar através do que deverá ser uma cortina), e essa cómoda tem as duas gavetas inferiores abertas, a última mais puxada para fora de maneira a formar degrau com a seguinte. É o Verão, talvez o Outono do ano em que o Francisco vai morrer. Neste momento (o retrato está aí para quem o quiser ver) é um rapazinho alegre, sólido, perfeito, que, pelos vistos, não tem paciência para esperar que o corpo lhe cresça e os braços se lhe alonguem para chegar a algo que se encontra em cima da cómoda. É tudo quanto recordo. Se a mãe apareceu para cortar cerce as veleidades alpestres do Francisco, não sei. Não sei sequer se ela estava em casa, se teria ido lavar escadas a algum prédio próximo. Se o teve de fazer depois, por necessidade, quando eu era suficientemente crescido para perceber o que se passava, é mais do que provável que já o fizesse então, quando a necessidade se tornou maior. O irmão do Francisco nada poderia fazer para amparar na queda o ousado alpinista, se ela se tivesse dado. Devia estar sentado no chão, de chupeta na boca, com aquele seu pouco mais que um ano e meio, ocupado, sem que pudesse imaginar que o fazia, a registar em qualquer parte do seu pequeno cérebro o que estava vendo para poder vir a contá-lo, uma vida depois, ao respeitável público. Esta é, pois, a minha memória mais antiga. E talvez seja falsa ...
(As Pequenas Memórias, Porto Editora, 1ª edição pp.105-106)
Texto 5
Contei noutro lugar como e porquê me chamo Saramago. Que esse Saramago não era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo o meu pai a declarar no Registo Civil da Golegã o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcionário (chamava-se ele Silvino) estava bêbado (por despeito, disso o acusaria sempre meu pai), e que, sob os efeitos do álcool e sem que ninguém se tivesse apercebido da onomástica fraude, decidiu, por sua conta e risco, acrescentar Saramago ao lacónico José de Sousa que meu pai pretendia que eu fosse. E que, desta maneira, finalmente, graças a uma intervenção por todas as mostras divina, refiro-me, claro está, a Baco, deus do vinho e daqueles que se excedem a bebê-lo, não precisei de inventar um pseudónimo para, futuro havendo, assinar os meus livros. Sorte, grande sorte minha, foi não ter nascido em qualquer das famílias da Azinhaga que, naquele tempo e por muitos anos mais, tiveram de arrastar as obscenas alcunhas de Pichatada, Curroto e Caralhana. Entrei na vida marcado com este apelido de Saramago sem que a família o suspeitasse, e foi só aos sete anos, quando, para me matricular na instrução primária, foi necessário apresentar certidão de nascimento, que a verdade saiu nua do poço burocrático, com grande indignação de meu pai, a quem, desde que se tinha mudado para Lisboa, a alcunha desgostava. Mas o pior de tudo foi quando, chamando-se ele unicamente José de Sousa, como ver se podia nos seus papéis, a Lei, severa, desconfiada, quis saber por que bulas tinha ele então um filho cujo nome completo era José de Sousa Saramago. Assim intimado, e para que tudo ficasse no próprio, no são e no honesto, meu pai não teve outro remédio que proceder a uma nova inscrição do seu nome, passando a chamar-se, ele também, José de Sousa Saramago. Suponho que deverá ter sido este o único caso, na história da humanidade, em que foi o filho a dar o nome ao pai. Não nos serviu de muito, nem a nós nem a ela, porque meu pai, firme nas suas antipatias, sempre quis e conseguiu que o tratassem unicamente por Sousa.
(As Pequenas Memórias, Porto Editora, 1ª edição, p. 41)