Esta é uma ilha do arquipélago das Canárias. Pertence a Espanha, portanto. José Saramago viveu nessa ilha os últimos anos da sua vida. Os seus diários, publicados entre 1993 e 2018, contêm no título o nome da ilha. São os Cadernos de
Nota: o último volume dos Cadernos de Lanzarote foi encontrado, vários anos depois da morte do escritor, gravado no disco rígido de um dos seus computadores.
Um excerto do Último Caderno de Lanzarote, com um episódio da infância do autor:
[…] Junto a uma das portas dos Armazéns Grandella havia um homem a vender balões, fosse por tê-lo eu pedido […], fosse porque minha mãe tivesse querido, excecionalmente, fazer-me um carinho público, um daqueles balões passou às minhas mãos. Não me lembro se era verde ou vermelho, amarelo ou azul, ou branco, simplesmente. O que depois se passou iria apagar para sempre da minha memória a cor que deveria ter-me ficado pegada aos olhos para sempre, uma vez que aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida. Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante como se conduzisse pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quando, de repente, ouvi alguém que se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvaziara-se, tinha vindo a arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, enrugada, informe, e dois homens que vinham atrás de mim riam-se […]. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel, agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo.
José Saramago (2018), último caderno de Lanzarote, 1ª edição, Porto Editora