Cardus Edição 122, junho 2023

FILOSOFALANDO


José Alves Jana
Filósofo


1. Pensar contando histórias


A forma natural de pensar dos seres humanos é a narrativa. Quando nos perguntam quem somos ou a explicação para um acontecimento ou mesmo uma interpretação sobre algum aspecto da vida, o mais provável – o mais natural – é respondermos através de uma história que é suposto mostrar ou dar a conhecer o que se pretende. Não admira, por isso, que as primeiras formas humanas de pensar tenham sido e continuem a ser isso mesmo: contar uma história.

Não é, por exemplo, o que acontece com o problema das origens da humanidade? O mito, qualquer mito das origens, é uma forma de pensar contando histórias. Mas, cuidado para não se misturar alhos com bugalhos: o mito não é uma forma de História segundo as exigências metodológicas do nosso tempo que pretende dar a conhecer, tanto quanto possível, “o que realmente se passou”. O mito não tem essa preocupação, porque essa não era uma preocupação desse tempo. O mito não se interessava pelo que se passou, era sobretudo a resposta a outro tipo de problemas, aliás, muito mais importante: como havemos de viver?

Se prestarmos atenção às conversas do nosso meio mais próximo, o que na maioria dos casos iremos encontrar é pessoas a contar histórias. Pensamos contando histórias. Contar histórias é a forma mais natural de pensar.

Por detrás das histórias que contamos está a vida com as suas exigências e a necessidade de nos orientarmos sobre o que fazer. O que caracteriza os seres humanos é a possibilidade de decidir, isto é, de inflectir o curso dos acontecimentos. As coisas, até hoje, foram o que foram e mesmo hoje são o que são, não há volta a dar. Mas amanhã, podem ser diferentes do que seriam se não tomarmos uma decisão de modo a que sejam diferentes. Contudo, há aqui um problema muito complexo: é importante saber como decidir. Que fazer? Esta é uma questão essencial para a qualidade de vida que queremos. Dito de outra forma: precisamos de sentido para tomar decisões. E o termo “sentido” tem dois conteúdos: significado e direcção. Nós somos feitos de histórias, isto é, de narrativas que nos dizem o significado e a direcção das decisões a tomar para que a vida se torne naquilo que queremos que seja. Porque essa é outra face da natureza humana, a insatisfação com o que já temos e já somos. Mas, se queremos uma vida melhor, temos de saber como decidir. Nada melhor que uma boa história com a sua “moral” ou “lição” sobre como viver. Pensar é algo que nos acontece na vida, isto é, que nasce da vida e se dirige à vida. Pensa-se porque se vive e para viver melhor.

Antes de falarmos sobre filosofia, precisamos de ter em mente este princípio… Lá está: a palavra “princípio” significa, ao mesmo tempo, começo e normativo.