Cardus Edição 136, agosto 2024

FILATELIA

Edmundo

SELOS, essa coisa admirável!









Dados técnicos:
Data de emissão: 29.05.2024
Design: Colmeia Design
Impressor: Cartor

Mais informação


NAVIOS DA MARINHA MERCANTE



A propósito da comemoração do centenário da criação da Escola Superior Náutica Infante D. Henrique, os CTT emitiram uma série denominada Navios da Marinha Mercante e editaram um livro da autoria de Luís Miguel Correia e Rui Reis.

São sete os selos que compreendem esta emissão. Cada selo contém uma imagem do navio e um pormenor alusivo. Os navios foram selecionados pelos autores (com ajuda dum inquérito digital dirigido à comunidade marítima portuguesa) e, em princípio, serão os mais representativos do período que vai de 1820 (quando foi lançado à água o primeiro navio português construído na Inglaterra) até aos nossos dias (navio de cruzeiros World Explorer).

A pagela e o livro contêm muita informação sobre os navios, história da Marinha Mercante Portuguesas e da Escola Superior Náutica Infante Dom Henrique, o grande suporte das atividades náuticas portuguesas. Não há espaço para mais informação adicional pelo que (e também porque, tradicionalmente, em agosto, estamos todos de férias, mesmo aqueles que pouco fazem) recupero um excerto de um artigo que publiquei neste jornal em 2018 titulado “Os Paquetes”, com alguma reescrita de momento:

…

Há cerca de cinquenta anos as grandes viagens eram feitas por barco, a aviação comercial não existia, ou se existia era só para grandes bolsas. Viajava-se de e para as colónias de barco, a então Companhia Colonial (ou Nacional) de Navegação possuía paquetes modernos, alguns muito famosos, estou a lembrar-me por exemplo do Príncipe Perfeito e do Vera Cruz. Uma viagem de Lisboa a Luanda durava cerca de dez dias, às vezes parava-se na Madeira, onde se assistia ao espetáculo deprimente dos mergulhadores a apanharem no mar as moedas que lhes atiravam do convés, outras vezes em Las Palmas, onde os relógios eram baratos mas deixavam de trabalhar logo que se regressava ao barco. As suites variavam de acordo com o estatuto dos viajantes, a mim e família tocavam-me as do fundo do barco, as camas eram beliches, homens para um lado, mulheres para o outro, a cama mais disputada era a que ficava junto a uma pequena escotilha circular, uns centímetros acima da linha de água. Os barcos dançavam consoante o temporal, vomitar era um ato praticado várias vezes ao dia, o cheiro a vómito era uma companhia permanente. No convés e no salão restaurante estava-se melhor, por ali se passava o dia e parte da noite, as catacumbas eram mesmo só para dormir. Montava-se uma piscina de lona para os mais pequenos, à noite havia cinema projetado num ecrã colocado no mastro principal. A proa do barco era reservada ao transporte de carros, era também aproveitada para amores de ocasião, a hora do cinema era a mais concorrida. Quando se passava a linha do equador, havia festa de aldeia, com quermesse, rifas e baile com eleição da misse equador, ou outro cognome qualquer que já não me lembro. Os marinheiros eram multifunções, uma das tarefas era a pintura de exteriores, um deles enganou-se e pintou a cara dum colega que lhe disse qualquer coisa acerca da mulher que ele não gostou, só não lhe enfiou o pincel pela boca dentro, porque não cabia. A entrada no porto de Luanda era uma festa, o cais cheio de gente à espera das novidades, alguns à espera da família, outros à espera de conhecer a mulher com quem tinham casado por procuração e que tinha feito a festa de despedida de solteira na proa do barco à hora do cinema. A aproximação ao cais levava algum tempo, o suficiente para as pessoas se irem reconhecendo e acenando até ao abraço final já em terra firme.

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O texto completo pode ser lido aqui.