Cardus Edição 37, 01-08-2018
Os cruzeiros estão muito em moda. Trata-se duma forma de turismo relativamente moderna e cara, são o projeto de vida de alguma gente, entrar num país pelo mar é algo excitante, como o foi a entrada pelo ar no início da aviação comercial. No porto de Lisboa entram regularmente paquetes de cruzeiros, já têm inclusivamente um terminal próprio. Alfama e arredores estão regularmente empanturrados destes novos turistas, chegam, passeiam pela zona portuária, almoçam ou jantam nos restaurantes da zona, fazem muitas, poucas ou nenhumas compras, e regressam ao hotel flutuante para mais uma viagem de céu e mar por companhia. No mar continuam a fazer compras agora no centro comercial, comem e dormem e devem fazer outras coisas que não sei, porque nunca fiz nenhum cruzeiro de barco. Uma vida de sonho, para espíritos lúdicos mais ambiciosos.
Os cruzeiros de barco são uma novidade, os paquetes não, ressuscitaram com esta nova forma de turismo. Há cerca de cinquenta anos as grandes viagens eram feitas por barco, a aviação comercial não existia, ou se existia era para só para grandes bolsas. Viajava-se de e para as colónias de barco, a então Companhia Colonial (ou Nacional) de Navegação possuía paquetes modernos, alguns muito famosos, estou a lembrar-me por exemplo do Príncipe Perfeito e do Vera Cruz. Uma viagem de Lisboa a Luanda durava cerca de dez dias, às vezes parava-se na Madeira, onde se assistia ao espetáculo deprimente dos mergulhadores que apanhavam em grandes mergulhos as moedas que lhes atiravam do convés, outras vezes em Las Palmas, onde os relógios eram baratos, mas deixavam de trabalhar logo que se regressava ao barco. As suites variavam de acordo com o estatuto dos viajantes, a mim e família tocavam-me as do fundo do barco, as camas eram beliches, homens para um lado mulheres para o outro, a cama mais disputada era o que ficava junto a uma pequena escotilha circular, uns centímetros acima da linha de água. Os barcos dançavam consoante o temporal, vomitar era um ato praticado várias vezes ao dia, o cheiro a vómito era uma companhia permanente. No convés e no salão restaurante estava-se melhor, por ali se passava o dia e parte da noite, as catacumbas eram mesmo só para dormir. Montava-se uma piscina de lona para os mais pequenos, há noite havia cinema projetado num ecrã colocado no mastro principal. A proa do barco era reservada ao transporte de carros, era também aproveitada para amores de ocasião, a hora do cinema era a mais concorrida. Quando se passava a linha do equador, havia festa de aldeia, com quermesse, rifas e baile com eleição da misse equador, ou outro cognome qualquer que já não me lembro. Os marinheiros eram multifunções, uma das tarefas era a pintura de exteriores, um deles enganou-se e pintou a cara dum colega que lhe disse qualquer coisa acerca da mulher que ele não gostou, só não lhe enfiou o pincel pela boca dentro, porque não cabia. A entrada no porto de Luanda era uma festa, o cais cheio de gente à espera das novidades, alguns à espera da família, outros à espera de conhecer a mulher com quem tinham casado por procuração que aproveitara em grande os últimos dias de liberdade na proa do barco à hora do cinema. A aproximação ao cais levava algum tempo, o suficiente para as pessoas se irem reconhecendo e acenando até ao abraço final já em terra firme.
Não sei como é o dia a dia nos cruzeiros de hoje, nos paquetes dos anos 60, era mais ou menos assim, falo por conhecimento próprio.
O tema da crónica de hoje teve origem num livro de Lídia Jorge que acabei de ler (O Estuário) onde a escritora me diz que o poema mais belo da língua portuguesa é a Ode Marítima de Álvaro de Campos. Pois, o poema é longo, não cabe aqui nesta página, começa com um paquete entrando no Tejo, aqui fica um cheirinho das primeiras linhas:
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico
à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
…