Cardus Edição 123, julho 2023
Seleção e notas de
Raul Leal Gaião
NUNO JÚDICE – (Mexilhoeira Grande – 1949), poeta (com uma extensa obra), ficcionista e ensaísta. Diretor da revista literária “Tabacaria” (1996-2009) e diretor da “Revista Colóquio-Letras”, da Fundação Calouste Gulbenkian. Divulgador da literatura portuguesa do século XX.
Quero que o meu poema fale de barcos e de azul, fale
do mar e do corpo que o procura, fale de pássaros e
do céu que o habitam. Quero um poema puro, limpo
do lixo das coisas banais, das contaminações de quem
só olha para o chão; um poema onde o sublime nos
toque, e o poético seja a palavra plena. É este poema
que escrevo na página branca como a parede que
acabou de ser caiada, com as suas imperfeições
apagadas pela luz do dia, e um reflexo de sol
a gritar pela vida. E quero que este poema desça
às caves onde a miséria se acumula, aos bancos onde
dormem os que não têm tecto nem esperança,
às mesas sujas dos restos da madrugada, às
esquinas onde a mulher da noite espera o último
cliente, ao desespero dos que não sabem para onde
fugir quando a morte lhes bate à porta. E canto
a beleza que sobrevive às frases comuns, às
palavras sujas pelo quotidiano dos medíocres
aos versos deslavados de quem nunca ouviu
o grito do anjo. E digo isto para que fique, no
poema, como a pedra esculpida por um fogo divino.
(Nuno Júdice, “A matéria do poema”, Publicações Dom Quixote, 2008)