Cardus Edição 99, julho 2021

Selos





Estação Orbital Salyut

Este selo foi emitido pelos Correios do Quirguistão no passado dia oito de junho. Comemora o cinquentenário do lançamento da primeira estação orbital terreste que levou o nome de “Salyut”.

A extinta União Soviética foi pioneira naquilo a que podemos chamar a conquista do espaço. Foi ela que colocou o primeiro satélite artificial a orbitar sobre a Terra (Sputnik I, 1957) e foi ela que colocou o primeiro homem no espaço (Iuri Gagarin, 1961). Estava-se em plena guerra fria, havia duas superpotências que dominavam a terra, os restantes países ou estavam alinhados com uma ou com a outra. A outra chamava-se Estados Unidos da América que, ao aperceber-se do sucesso que a rival estava a ter na conquista do espaço, imediatamente lançou um grande programa de investimentos, cujo ponto alto foi ter colocado o primeiro homem na lua, não vale a pena dizer o nome nem a data, pois toda a gente sabe.

A primeira estação orbital terreste também foi lançada pela União Soviética. É a que o selo retrata. Era um monstro cilíndrico com quase 15 metros de comprimento, um diâmetro de 4,15 metros no cilindro maior e um peso de 15 toneladas. Para levantar um peso destes era preciso muita força e equilíbrio. Quem se encarregou desta parte foi um foguete, melhor, um foguetão, que a levantou e colocou no sítio certo, na chamada órbita, onde deixa de haver peso e apenas a massa se mantém. O foguetão apelidava-se Proton, uma família que conseguia levantar grandes pesos, nesta altura com valores acima dos da concorrência.

A estação destinava-se a alojar temporariamente (dois meses) astronautas (até três). Tinha um volume habitável de 90 m3 o que dá, para uma altura de 3 metros, um pequeno apartamento no espaço com uma área de 30 m2. Não tem aqui sentido falar em área, pois os hóspedes raramente tinham os pés no chão, viviam suspensos no ar, podiam dormir junto ao teto, ou num canto, na horizontal ou na vertical, só tinham que escolher o sítio. Estavam livres de quedas, neste aspeto estavam mais protegidos do que aqueles que tinham ficado em terra.

Não teve muitos hóspedes esta primeira estação espacial. Os primeiros três interessados voltaram desiludidos para casa porque não conseguiram abrir a porta de entrada. Os segundos, com a fechadura entretanto reparada, conseguiram inaugurar o espaço e viver e trabalhar nele 23 dias. Fizeram muitas experiências e devem ter descoberto muitas coisas novas. Infelizmente não puderam partilhar as emoções e eventualmente os conhecimentos com quem tinha ficado em terra. No regresso a casa, um problema numa válvula despressurizou a cabine e os três astronautas perderam a vida. O projeto russo não contemplava até então fatos pressurizáveis para os astronautas, o que foi imediatamente alterado após este desastre. Foram os segundos e os últimos hóspedes da estação. Este primeiro hotel do espaço existiu durante 176 dias. Em 11 de outubro do mesmo ano, foi retirado da sua órbita estável, aproximou-se da terra, queimou-se ao entrar na atmosfera e os destroços caíram no pacífico conforme programado.

Mais estações foram lançadas pelo programa russo. No fim do percurso aparece então a famosa MIR (paz), na qual foi investido todo o conhecimento adquirido até então. Quando ficou pronta tinha uma massa de 130 toneladas que não pôde ser transportada duma única vez. Foi dividida em sete partes que foram depois juntas por cima das nossas cabeças, um processo que demorou dez anos. Esteve sempre habitada, um dos seus hóspedes ainda hoje detém o recorde de permanência no espaço: Valeri Polyakov passou 437 dias e 18 horas na estação entre 1994 e 1995.

Um dia, à noite, vi a Mir. Passou por cima de Lisboa, a rádio e a televisão indicaram a hora o local onde aparecia e desaparecia. Arranjei um bom lugar e esperei pela passagem com a mesma emoção com que, quando era miúdo, assistia à passagem dos comboios. À hora exata e no sítio certo, apareceu um ponto luminoso, facilmente identificável pela velocidade que levava. Era a Mir. Foram cerca de três minutos até desaparecer no horizonte oposto. Apenas um ponto luminoso que rapidamente atravessou o céu.

E, neste momento em que a crónica chega ao fim, vem-me à memória o poema do pescador (o sexto) de Manuel Alegre:

De noite junto ao mar eu pescador
não mais que um ponto de interrogação
pergunta sem resposta
batido pelo vento entre o tudo e o nada
essas duas palavras sem sentido
ou que só têm sentido do avesso
olho as estrelas eu próprio em combustão
cinza futura
olho as estrelas e os grandes intervalos negros
onde por vezes brilha
um ponto
o quê ou quem
talvez o todo
talvez o menos multiplicado pelo menos
Deus ou ninguém
não mais que um ponto
ou eu só frente ao mar
entre duas palavras sem sentido.

in Senhora das Tempestades (1998)